Ano Novo com o Papa Leão XIV

Apresentamos a homilia da missa de 1º de Janeiro, solenidade de Santa Maria, mãe de Deus, bem como a homilia do 31 de dezembro.

1º de janeiro de 2026 * 31 de dezembro de 2025


Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

Quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje, Solenidade de Maria Santíssima, Mãe de Deus, início do novo ano civil, a Liturgia nos oferece o texto de uma belíssima bênção: "O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te favoreça! O Senhor volte para ti a sua face e te dê a paz!" (Nm 6, 24-26).

Esta bênção encontra-se, no livro dos Números, após as indicações sobre a consagração dos nazireus, para destacar a dimensão sagrada e fecunda do dom na relação entre Deus e o povo de Israel. O homem oferece tudo o que recebeu ao Criador, que responde voltando para ele o seu olhar benigno, tal como nos primórdios do mundo (cf. Gn 1, 31).

Graças à intervenção de Deus e à resposta generosa do seu servo Moisés, o povo de Israel, a quem esta bênção se dirigia, era um povo de libertos, de homens e mulheres renascidos após uma prolongada escravidão. Era um povo que no Egito tinha usufruído de algumas seguranças – não faltava comida, nem teto, nem uma certa estabilidade –, mas à custa de ser escravo, oprimido por uma tirania que exigia cada vez mais, dando cada vez menos (cf. Ex 5, 6-7). Agora, no deserto, muitas das certezas do passado se perderam, mas, em troca, havia liberdade, concretizada em um caminho aberto para o futuro, no dom de uma lei de sabedoria e na promessa de uma terra onde fosse possível viver e crescer sem grilhões nem correntes; em suma, um renascimento.

Assim, no início do novo ano, a Liturgia nos lembra que cada dia pode ser o início de uma nova vida para cada um de nós, graças ao amor generoso de Deus, à sua misericórdia e à resposta da nossa liberdade. É bonito pensar deste modo o ano que começa: como um caminho aberto, a descobrir, no qual por graça nos podemos aventurar, livres e portadores de liberdade, perdoados e doadores de perdão, confiantes na proximidade e na bondade do Senhor que sempre nos acompanha.

Recordamos tudo isso ao celebrar o mistério da Divina Maternidade de Maria, que, com seu "sim", contribuiu para dar à Fonte de toda a misericórdia e benevolência um rosto humano: o rosto de Jesus. Através de seus olhos de criança, depois de jovem e de homem, o amor do Pai nos alcança e transforma.

Por isso, no início do ano, ao nos encaminharmos para os dias novos e únicos que nos esperam, pedimos ao Senhor que, a cada momento, sintamos à nossa volta e sobre nós o calor de seu abraço paterno e a luz de seu olhar benevolente, para compreendermos cada vez mais quem somos e a que fim maravilhoso nos dirigimos (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et Spes, 41). Ao mesmo tempo, porém, também lhe damos glória com a oração e a santidade de vida, tornando-nos uns para os outros espelho de sua bondade.

Santo Agostinho ensinava que, em Maria, "o criador do homem se fez homem, para que, embora fosse o criador das estrelas, se alimentasse do seio de uma mulher; embora fosse o pão (cf. Jo 6, 35), pudesse ter fome (cf. Mt 4, 2); [...] para nos libertar, embora fôssemos indignos" (Sermo 191, 1.1). Desse modo, ele recordava uma das características fundamentais do rosto de Deus: a total gratuidade de seu amor, pelo qual ele se nos apresenta — como quis sublinhar na mensagem deste Dia Mundial da Paz — "desarmado e desarmante", nu e indefeso, como um recém-nascido no berço. Tudo isso para nos ensinar que o mundo não se salva afiando espadas, julgando, oprimindo ou eliminando os irmãos, mas sim se esforçando incansavelmente para compreender, perdoar, libertar e acolher todos, sem cálculos nem medos.

É este o rosto de Deus que Maria deixou que se formasse e crescesse no seu ventre, mudando completamente a sua vida. É o rosto que ela anunciou através da luz alegre e delicada dos seus olhos de mãe expectante; o rosto cuja beleza ela contemplou dia após dia, à medida que Jesus ia crescendo – criança, adolescente e jovem – na sua casa; e que depois acompanhou, com o seu coração de discípula humilde, enquanto Ele percorria os caminhos da sua missão, até à cruz e ressurreição. Para isso, ela também depôs todas as defesas, renunciando a expectativas, pretensões e garantias, como as mães sabem fazer, consagrando sem reservas sua vida ao filho que por graça havia recebido, para que ela, por sua vez, o doasse novamente ao mundo.

Na Maternidade Divina de Maria, observamos o encontro de duas realidades imensas e “desarmadas”: a de Deus, que renuncia a todos os privilégios da sua divindade para nascer segundo a carne (cf. Fil 2, 6-11), e a da pessoa que com confiança abraça totalmente a sua vontade, prestando-Lhe, num ato perfeito de amor, a homenagem do seu maior poder: a liberdade.

Meditando sobre este mistério, São João Paulo II convidava a contemplar o que os pastores encontraram em Belém: “a serena ternura do Menino, a surpreendente pobreza em que Ele se encontra, a humilde simplicidade de Maria e de José” transformaram as suas vidas, tornando-os “mensageiros de salvação” (Homilia na Missa de Maria Santíssima, Mãe de Deus, XXXIV Dia Mundial da Paz, 1 de janeiro de 2001).

Ele o disse no final do Grande Jubileu do ano 2000, com palavras que também podem nos fazer refletir: “Quantos dons – afirmava – e quantas ocasiões extraordinárias o grande Jubileu ofereceu aos fiéis! Na experiência do dom recebido e concedido, na recordação dos mártires, na escuta do brado dos pobres do mundo […] também nós entrevimos a presença salvífica de Deus na história. Quase tocamos com a mão o seu amor que renova a face da terra” (ibid.), e concluía: “Como aos pastores que acorreram para adorá-lo, Cristo pede aos fiéis, aos quais concedeu a alegria do Seu encontro, uma corajosa disponibilidade para partir de novo e anunciar o seu Evangelho, antigo e sempre novo. Convida-os a vivificar a história e as culturas dos homens com a sua mensagem salvífica” (ibid.).

Queridos irmãos e irmãs, nesta Festa solene, no início do novo ano, prestes a concluir o Jubileu da Esperança, aproximemo-nos com fé do Presépio, lugar por excelência da paz “desarmada e desarmante”, lugar de bênção, no qual podemos recordar os prodígios que o Senhor realizou na história da salvação e na nossa existência, para depois partirmos, como os humildes testemunhas da gruta, “glorificando e louvando a Deus” (Lc 2, 20) por tudo o que vimos e ouvimos. Que seja este o nosso compromisso e propósito para os próximos meses e para toda a nossa vida cristã.



Maria Santíssima, mãe de Deus

Primeiras Vésperas e Te Deum de Ação de Graças pelo Ano que Passou

Homilia do Papa Leão XIII

Basílica de São Pedro, quarta-feira, 31 de dezembro de 2025.

Estimados irmãos e irmãs!

A liturgia das primeiras Vésperas da Mãe de Deus contém uma riqueza singular, derivada tanto do mistério vertiginoso que celebra quanto de sua colocação precisamente no final do ano civil. As antífonas dos salmos e do Magnificat destacam o evento paradoxal de um Deus que nasce de uma virgem, ou, vice-versa, a maternidade divina de Maria. Ao mesmo tempo, esta solenidade, que encerra a oitava do Natal, cobre a passagem de um ano para outro, estendendo sobre ela a bênção daquele "que era, que é e que vem" (Ap 1, 8). Além disso, hoje a celebramos no encerramento do Jubileu, no coração de Roma, diante do túmulo de Pedro. Então, o Te Deum que em breve ressoará nesta basílica desejará dilatar-se para dar voz a todos os corações e rostos que passaram por estas abóbadas e pelas ruas desta cidade.

Na leitura bíblica, ouvimos uma das surpreendentes sínteses do apóstolo Paulo: "Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar quantos estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos" (Gl 4, 4-5). Essa forma de apresentar o mistério de Cristo faz pensar em um desígnio, um grande desígnio sobre a história humana. Um desígnio misterioso, porém, com um centro claro, como uma alta montanha iluminada pelo sol no meio de uma densa floresta — este centro é a "plenitude dos tempos"!

E é justamente essa palavra – “desígnio” – que ressoa no cântico da Carta aos Efésios: "O desígnio de reunir em Cristo todas as coisas, / tanto as do céu como as da terra. / Na sua benevolência, já o havia formado, / para o realizar na plenitude dos tempos" (Ef 1, 9-10).

Irmãs e irmãos, em nosso tempo, sentimos a necessidade de um desígnio sábio, benevolente e misericordioso. Que seja um projeto livre e libertador, pacífico e fiel, como o proclamado pela Virgem Maria em seu cântico de louvor: "De geração em geração, a sua misericórdia se estende sobre os que o temem" (Lc 1,50).

Outros desígnios, porém, tanto hoje como ontem, envolvem o mundo. São, sobretudo, estratégias que visam conquistar mercados, territórios e zonas de influência. São estratégias armadas, revestidas de discursos hipócritas, de proclamações ideológicas e de falsos motivos religiosos.

Mas a Santa Mãe de Deus, a mais pequenina e a mais excelsa entre as criaturas, vê a realidade com o olhar de Deus: vê que, com o poder do seu braço, o Altíssimo dispersa as tramas dos soberbos, derruba os poderosos dos tronos e eleva os humildes, enche de bens as mãos dos famintos, esvaziando as dos ricos (cf. Lc 1, 51-53).

A Mãe de Jesus é a mulher com quem Deus, na plenitude dos tempos, escreveu a Palavra que revela o mistério. Ele não a impôs: primeiro a propôs ao seu coração. Tendo recebido o seu "sim", Deus a escreveu com amor inefável em sua carne. Dessa forma, a esperança de Deus entrelaçou-se à esperança de Maria, descendente de Abraão segundo a carne, mas, sobretudo, segundo a fé.

Deus ama esperar com o coração dos pequeninos e o faz envolvendo-os em seu desígnio de salvação. Quanto mais belo é o desígnio, maior é a esperança. E, de fato, o mundo avança assim, impelido pela esperança de tantas pessoas simples e desconhecidas, mas não para Deus. Apesar de tudo, elas acreditam em um amanhã melhor, pois sabem que o futuro está nas mãos d'Aquele que lhes oferece a maior esperança!

Uma dessas pessoas era Simão, um pescador da Galileia a quem Jesus deu o nome de Pedro. Deus Pai lhe deu uma fé tão sincera e generosa que o Senhor pôde construir sua comunidade sobre ela (cf. Mt 16, 18). Ainda hoje, rezamos aqui, diante de seu túmulo, onde peregrinos de todas as partes do mundo vêm renovar sua fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus. Isso aconteceu de modo especial durante o Ano Santo que está para terminar.

O Jubileu é um grande sinal de um mundo novo, renovado e reconciliado segundo o desígnio de Deus. Nesse desígnio, a Providência reservou um lugar especial para a cidade de Roma. Não por suas glórias ou poder, mas porque aqui Pedro, Paulo e muitos outros mártires derramaram seu sangue por Cristo. Por isso, Roma é a cidade do Jubileu!

O que podemos desejar a Roma? Que esteja à altura de seus pequeninos. Das crianças, dos idosos sozinhos e frágeis, das famílias que enfrentam mais dificuldades, dos homens e mulheres que vieram de longe em busca de uma vida digna.

Caros irmãos, hoje damos graças a Deus pela dádiva do Jubileu, um grande sinal de seu desígnio de esperança para o homem e o mundo. Agradecemos também a todos aqueles que, nos meses e dias de 2025, trabalharam ao serviço dos peregrinos e para tornar Roma mais acolhedora. Há um ano foram estes os votos do amado Papa Francisco! Gostaria que continuassem a sê-lo, e diria ainda mais depois deste tempo de graça. Que esta cidade, animada pela esperança cristã, possa estar ao serviço do desígnio de amor de Deus sobre a família humana. Que a intercessão da Santa Mãe de Deus, Salus Populi Romani, nos conceda isso!