A visão de São Josemaria de uma escola de direção e negócios

Mons. Mariano Fazio expõe a visão de São Josemaria sobre as escolas de negócios: instituições chamadas a unir a excelência profissional, a doutrina social da Igreja e a santificação do trabalho, colocando a pessoa no centro e cultivando um profundo espírito de serviço.

Un profesor imparte una clase en una escuela de negocios

Índice

Testemunhos históricos de São Josemaria

Doutrina social e espírito do Opus Dei

A centralidade da pessoa e a empresa como comunidade de pessoas

Justiça e caridade

Um empresário rumo aos altares: Enrique Shaw

Testemunhos históricos de São Josemaria

Para estabelecer qual era a visão de São Josemaria sobre uma Escola de direção e negócios, é indispensável recorrer aos testemunhos históricos. Um deles nos é fornecido por Francisco Ponz Piedrafita, que com o tempo, viria a ser o reitor da Universidade de Navarra. Dom Francisco nos conta que, já no final dos anos quarenta, durante “suas viagens a Barcelona, onde eu me encontrava, o Bem-aventurado Josemaria Escrivá de Balaguer comentou algumas vezes o interesse apostólico de melhorar a formação e a vida cristã de tantas pessoas que, na Catalunha, se ocupavam de dirigir empresas de todo tipo, de iniciativa privada, familiar ou social. Fazia ver a transcendência espiritual e social que teria o fato de aqueles que assumiam a responsabilidade na promoção, direção e desenvolvimento de empresas serem cristãos exemplares e atuarem em tudo de acordo com a sua fé, com bom critério profissional e cristão, de acordo com os ensinamentos e os princípios morais da Igreja, com espírito de serviço para com seus funcionários e para com a sociedade em geral, sem se deixarem arrastar por ambições meramente humanas, pelo simples desejo de enriquecimento material”1.

É interessante constatar como, desde o início, São Josemaria percebia a importância de formar empresários – homens e mulheres – bem preparados profissionalmente e cristãos coerentes, porque disso resultaria um grande bem para o restante da sociedade.

O fundador do Opus Dei era um “homem de desejos” que procurava transformar seus sonhos em realidade. Depois de alguns anos, considerou que havia chegado o momento de colocar em prática uma iniciativa desse tipo no âmbito empresarial. O professor Antonio Valero, um dos pioneiros do IESE,2 conta o seguinte: “No verão de 1956 ou 1957, os diretores do Opus Dei na Espanha me pediram, muito informalmente, se eu queria aceitar o encargo de pensar em algo apostólico e educativo na área da empresa, das empresas. Foi assim, de modo breve e sucinto, e respondi que sim, com a mesma brevidade”3. Apesar da concisão das orientações recebidas, ali estava o essencial: uma escola de negócios promovida por pessoas do Opus Dei devia possuir uma dimensão educativa, de formação técnica e profissional e, indissoluvelmente unida a ela, uma dimensão apostólica.

Por ocasião do 50.º aniversário do IESE, Javier Echevarría, prelado do Opus Dei e grão-chanceler da Universidade de Navarra naquele momento, afirmava que, ao promover a criação do IESE, São Josemaria contemplava antecipadamente o desenvolvimento que, com o tempo, haveria de alcançar uma instituição de grande altura profissional, dedicada à formação e ao aperfeiçoamento de empresários e executivos, que, no núcleo de sua missão, incluísse um claro desejo de serviço e a vontade de dar ao trabalho uma orientação plenamente cristã e, portanto, verdadeiramente humana4.

Depois de alguns anos de trajetória, São Josemaria visitou o IESE em novembro de 1972. Conserva-se a gravação em vídeo do encontro, ao qual assistiu um bom número de pessoas ligadas à escola de negócios. No encontro, em resposta a uma certa mentalidade pouco secular que considerava que as atividades econômicas e comerciais eram incompatíveis com uma vida autenticamente cristã – talvez pela tendência a apresentar a vida religiosa como o modelo de santidade –, quis ler diferentes passagens do Evangelho, nas quais se manifesta o apreço do Senhor por esse tipo de atividade. Vale a pena citá-lo totalmente:

“É de São Lucas, no capítulo 19. Havia uma pessoa poderosa que precisava partir. Reparte seu dinheiro entre seus servos para que o administrem. A um dá uma parte, a outro outra… Quando volta e comprova que um deles não multiplicou o capital, diz-lhe: “por que não puseste meu dinheiro no banco, para que eu, ao regressar, o recuperasse com os juros?” Isso não é um negócio? Um negócio modesto; desses que vocês não gostam de fazer. Mas, afinal, é um negócio. E o Senhor o elogia. Eu também não tenho outro remédio senão elogiá-los.

São Mateus relata ainda outra parábola: a da rede de arrasto. Aqui as coisas vão mais ou menos, porque na rede entram peixes bons, peixes maus… é preciso ter paciência. Arrastam a rede para a margem: pegam os bons e os colocam nos cestos. E os maus… fora! Há negócio, mas não o esperado.

Às vezes há em nossos negócios muitas dificuldades. No Evangelho de São Mateus nos é recordado o semeador que semeia boa semente… vem o inimigo, o adversário, e semeia joio. O que ele faz? Tem paciência: deixamos isso aí e não mexemos; chegará o momento. E vem o tempo oportuno e ceifa tudo… E fez negócio. Venceu a dificuldade.

Amanhã, na Santa Missa [...] pedirei ao Senhor que os abençoe; que lhes dê a serenidade do dono do campo, quando lhe plantam joio [...], para que o Senhor lhes dê a decisão de comprar o campo onde está o tesouro; que lhes dê o impulso necessário para ir atrás da pérola preciosíssima [...]. Seus negócios estão inseridos no Evangelho. O Senhor os olha com carinho [...]. Eu também olho para todos vocês com um afeto especial. Eu os elogiei com palavras de Jesus Cristo, palavras que subscrevo, porque sou sacerdote d’Ele”.

Doutrina social e espírito do Opus Dei

São Josemaria sempre considerou essencial para a formação dos cristãos um conhecimento adequado da doutrina social da Igreja. Inclusive sonhava que se incluíssem no catecismo da fé cristã os princípios fundamentais de moral social. Obviamente, a necessidade de uma boa formação nesse campo é mais urgente naqueles que têm especiais responsabilidades sociais, entre elas, os homens e as mulheres de empresa. Por isso desejava que o ensino em uma escola de negócios estivesse imbuído de doutrina social.

A doutrina social da Igreja fornece os princípios básicos para construir uma sociedade de acordo com o projeto de Deus para o mundo5. Por sua vez, há incontáveis problemas de caráter técnico que podem ser abordados de maneiras muito diversas, e nos quais deve reinar a liberdade responsável de cada cidadão profissionalmente formado. Em uma carta publicada em 1966, afirmava que “a doutrina católica não impõe soluções concretas, técnicas, aos problemas temporais; mas pede que vocês tenham sensibilidade diante desses problemas humanos e sentido de responsabilidade para enfrentá-los e dar-lhes um desfecho cristão”6.

São Josemaria era um apaixonado pela liberdade. Inúmeras vezes se referiu “à liberdade pessoal que os leigos têm para tomar, à luz dos princípios enunciados pelo Magistério, todas as decisões concretas de ordem teórica ou prática —por exemplo, em relação às diversas opiniões filosóficas ou políticas [...] —que cada um julgue em consciência convenientes e mais de acordo com suas convicções pessoais e aptidões humanas”7.

Tratando-se de escolas promovidas por pessoas do Opus Dei, junto à doutrina social recém-mencionada, também a santificação do trabalho, elemento central do espírito do Opus Dei, teria de inspirar toda a sua atividade. O chamado à santidade é universal e Deus procura a maioria das pessoas no meio do trabalho profissional. Por isso, São Josemaria esperava que nas escolas de negócios se trabalhasse com excelência profissional, retidão de intenção e espírito de serviço, condições indispensáveis para santificar o trabalho.

A centralidade da pessoa e a empresa como comunidade de pessoas

Um dos princípios orientadores da doutrina social da Igreja é a centralidade da pessoa humana. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja assegura com firmeza:

“Toda a vida social é expressão de seu protagonista inconfundível: a pessoa humana. Dessa consciência, a Igreja soube fazer-se intérprete autorizada, em múltiplas ocasiões e de diversas maneiras, reconhecendo e afirmando a centralidade da pessoa humana em todos os âmbitos e manifestações da sociabilidade: “A sociedade humana é, portanto, objeto do ensinamento social da Igreja desde o momento em que ela não se encontra nem fora nem acima dos homens socialmente unidos, mas existe exclusivamente por eles e, por conseguinte, para eles”. Este importante reconhecimento se expressa na afirmação de que “longe de ser um objeto e um elemento puramente passivo da vida social”, o homem “é, pelo contrário, e deve ser e permanecer, seu sujeito, seu fundamento e seu fim”. Do homem, portanto, traz sua origem a vida social, que não pode renunciar a reconhecê-lo como sujeito ativo e responsável, e a ele devem estar finalizadas todas as expressões da sociedade”8.

Uma das expressões da sociedade é sua dimensão econômica, o que supõe que a economia deve estar sempre orientada ao bem integral da pessoa e que, quando o ser humano participa de um processo econômico, deve ser tratado sempre como um fim em si mesmo, com respeito à sua dignidade, e nunca como um meio. Daí que seja contrária à doutrina cristã e à própria ética natural a teoria do economicismo, que reduz toda a existência à sua dimensão material. Tal teoria é compartilhada tanto pelo capitalismo das origens, que identifica sociedade com mercado, como pelo marxismo, que faz derivar todas as superestruturas sociais da estrutura econômica da sociedade.

Por sua vez, o Compêndio desenvolve uma visão da empresa a partir da perspectiva personalista:

A empresa deve caracterizar-se pela capacidade de servir ao bem comum da sociedade mediante a produção de bens e serviços úteis. Nessa produção de bens e serviços, com uma lógica de eficiência e de satisfação dos interesses dos diversos sujeitos envolvidos, a empresa cria riqueza para toda a sociedade: não só para os proprietários, mas também para os demais sujeitos interessados em sua atividade. Além dessa função tipicamente econômica, a empresa desempenha também uma função social, criando oportunidades de encontro, de colaboração, de valorização das capacidades das pessoas envolvidas. Na empresa, portanto, a dimensão econômica é condição para o alcance de objetivos não só econômicos, mas também sociais e morais, que devem ser perseguidos conjuntamente”9.

Toda empresa economicamente saudável deveria gerar benefícios. Os números serão sempre fundamentais em toda atividade econômica. Ao mesmo tempo, devemos ver por trás dos resultados econômicos as pessoas únicas e irrepetíveis que participaram desses resultados, como proprietários, acionistas, empregados, clientes, consumidores etc. A lógica exclusivamente numérica corre o risco de conduzir à desumanização.

São João Paulo II ensinava há alguns anos: “a Igreja reconhece a justa função dos lucros, como índice da boa marcha da empresa. Quando uma empresa dá lucro, significa que os fatores produtivos foram utilizados adequadamente e que as correspondentes necessidades humanas foram devidamente satisfeitas. No entanto, os lucros não são o único índice das condições da empresa. É possível que os balanços econômicos sejam corretos e que, ao mesmo tempo, os homens, que constituem o patrimônio mais valioso da empresa, sejam humilhados e ofendidos em sua dignidade. Além de ser moralmente inadmissível, isso não pode deixar de ter reflexos negativos para o futuro, até para a eficiência econômica da empresa. Com efeito, a finalidade da empresa não é simplesmente a produção de lucros, mas antes a própria existência da empresa como comunidade de homens que, de diversas maneiras, buscam a satisfação de suas necessidades fundamentais e constituem um grupo particular a serviço de toda a sociedade. Os lucros são um elemento regulador da vida da empresa, mas não o único; junto com eles é preciso considerar outros fatores humanos e morais que, a longo prazo, são pelo menos igualmente essenciais para a vida da empresa”10.

Os números e as estatísticas ajudam a compreender alguns aspectos da realidade, mas não dizem tudo. Tomemos um exemplo literário. No romance Tempos difíceis, Dickens nos apresenta um diálogo em uma escola de uma cidade mineradora inglesa em plena revolução industrial. O propósito do escritor é mostrar a falta de sensibilidade humana que se manifesta nas sociedades quando elas se regem exclusivamente pelos resultados econômicos ou pelo que os britânicos chamam de matters of fact, os fatos frios, despidos de um contexto que os humanize e lhes dê sentido. O professor da cidade, que é um positivista convicto, dirigiu-se a um grupo de jovens estudantes: “Digamos que esta sala de aula seja uma nação. E, nesta nação, há cinquenta milhões em dinheiro. Esta nação não é uma nação próspera?”. A pergunta foi dirigida à aluna número vinte — todas as crianças estão numeradas —, que respondeu que, na verdade, tinha dúvidas, pois não sabia em que mãos estava o dinheiro e se alguma parte lhe corresponde. O professor apresenta o problema de outra maneira: “Esta sala de aula é uma imensa cidade, e nela há um milhão de habitantes, e apenas vinte e cinco morrem de fome, nas ruas, no curso de um ano. O que você diria a respeito dessa proporção?”. A mesma menina respondeu que “a situação era ruim para os que morrem de fome, não importando se os demais fossem um milhão ou um bilhão”. Esse difícil diálogo entre aquele que só se atém às estatísticas e aquela que só se fixa em cada pessoa termina com a seguinte pérola: o professor pergunta que porcentagem representam quinhentas pessoas afogadas entre cem mil que embarcaram em um ano para fazer uma travessia marítima. Nossa menina responde que não representa nenhuma porcentagem para os parentes e amigos dos que pereceram11.

João Paulo II se perguntava se, depois da queda dos regimes comunistas, o sistema econômico que deveria ser empregado era o capitalismo. Mais uma vez expressa que a redução economicista não é uma resposta adequada para a construção de uma sociedade respeitosa da dignidade humana. Explica o santo polonês:

“A resposta apresenta-se obviamente complexa. Se por ‘capitalismo’ se indica um sistema econômico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no sector da economia, a resposta é certamente positiva, embora talvez fosse mais apropriado falar de ‘economia de empresa’, ou de ‘economia de mercado’, ou simplesmente de ‘economia livre’. Mas se por ‘capitalismo’ se entende um sistema onde a liberdade no setor da economia não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloque ao serviço da liberdade humana integral e a considere como uma particular dimensão desta liberdade, cujo centro seja ético e religioso, então a resposta é sem dúvida negativa”12.

Justiça e caridade

Que consequências traz a centralidade da pessoa na vida de uma empresa e, portanto, nos ensinamentos que uma escola de negócios com identidade cristã se propõe transmitir aos empresários e profissionais que nela se formam? Em primeiro lugar, que nas relações interpessoais, seja na empresa como em suas relações com a sociedade, deve-se respeitar a justiça em seu sentido clássico de “dar a cada um o que é seu”. Isso significa salários justos, bons produtos, publicidade verdadeira, operações financeiras legais, preços razoáveis e um longo etc.que cada um de vocês poderá acrescentar.

São Josemaria era advogado e possuía uma mentalidade jurídica e um grande amor à justiça. “Não se ama a justiça, se não se deseja vê-la estendida aos outros. Como também não é lícito encerrar-se numa religiosidade cômoda, esquecendo as necessidades alheias. Quem deseja ser justo aos olhos de Deus esforça-se também por fazer com que se pratique de fato a justiça entre os homens. E não apenas pelo bom motivo de que não se injurie o nome de Deus, mas porque ser cristão significa acolher todas as instâncias nobres que existem no ser humano. Parafraseando um conhecido texto do Apóstolo São João, podemos dizer que quem se proclama justo com Deus, mas não é justo com os outros homens, é um mentiroso; e a verdade não habita nele”13.

Respeitando o legítimo pluralismo que existe na busca de soluções técnicas para resolver as emergências sociais, o fundador do Opus Dei recordava a todos que parte central do Evangelho é a predileção pelos pobres e enfermos, que devem gozar dos mesmos direitos dos demais homens. Nesse sentido, a Igreja do século XX formulou o princípio da “opção ou amor preferencial pelos pobres”, que é magistério de João Paulo II, como uma “forma especial de primazia no exercício da caridade cristã” e se aplica às “nossas responsabilidades sociais” e às “decisões que devem ser tomadas coerentemente sobre a propriedade e o uso dos bens”14.

Sem meias palavras, afirmava São Josemaria em meados do século passado: “Neste tempo de confusão, não se sabe o que é direita, nem centro, nem esquerda, no campo político e no social. Mas se por esquerda se entende conseguir o bem-estar para os pobres, a fim de que todos possam satisfazer o direito de viver com um mínimo de conforto, de trabalhar, de estar bem atendidos se adoecem, de distrair-se, de ter filhos e poder educá-los, de ser velhos e ser atendidos, então eu estou mais à esquerda do que ninguém. Naturalmente, dentro da doutrina social da Igreja, e sem compromissos com o marxismo ou com o materialismo ateu; nem com a luta de classes, anticristã, porque nestas coisas não podemos transigir”15.

Para São Josemaria há exigências de justiça que não podem ser ignoradas, e devem-se buscar todos os meios idôneos para que sejam respeitadas. Por sua vez, em sua visão social impregnada pelo amor de Cristo, considerava que a justiça sozinha não basta.

“Convencei-vos de que só com a justiça não resolvereis nunca os grandes problemas da humanidade. Quando se faz justiça a seco, não vos admireis de que a gente se sinta magoada: pede muito mais a dignidade do homem, que é filho de Deus. A caridade tem que ir dentro e ao lado, porque tudo dulcifica, tudo deifica: Deus é amor (...). Para chegarmos da justiça estrita à abundância de caridade, temos todo um trajeto a percorrer. E não são muitos os que perseveram até o fim. Alguns se conformam com aproximar-se dos umbrais: prescindem da justiça e limitam-se a um pouco de beneficência, que qualificam como caridade. (...). A caridade, que é como um generoso exorbitar-se da justiça, exige primeiro o cumprimento do dever: começa-se pelo que é justo; continua-se pelo mais equitativo (...).Mas, para amar, requer-se muita finura, muita delicadeza, muito respeito, muita afabilidade; numa palavra, é preciso seguir o conselho do Apóstolo: Levai uns as cargas dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo. Então, sim, já se vive plenamente a caridade, já se realiza o preceito de Jesus”16.

Tanto Bento XVI como Francisco, ao tratarem da atividade econômica, referiram-se às atitudes do dom e da gratuidade, que são outros modos de denominar a caridade, pois a caridade é amor, e o amor se concretiza em entregar-se, em dar-se gratuitamente. Martin Schlag comenta que essas lógicas “expressam que a pessoa humana não tem preço, mas dignidade, e que portanto deve situar-se no centro de toda atividade econômica como fundamento e finalidade. Nossas relações econômicas podem ser de tipos muito diversos: de exploração, de dominação, injustas, hostis etc. Ou o contrário: enriquecedoras, positivas, justas, amistosas etc. Nossa maneira de participar no mercado será consequência da decisão que tomemos em nossa vida interior: Quem queremos ser? Que tipo de pessoa decido ser em minhas atividades empresariais? Se decidimos respeitar os demais em sua dignidade, e inclusive amá-los como irmãos, teremos aplicado o princípio do “dom” de que falava Bento XVI: teremos renunciado gratuitamente a qualquer poder de dominação sobre os demais para servi-los. Isso implica aspirar a uma economia sustentável e de longo prazo e rejeitar a avareza de curto prazo que não leva em conta os custos humanos”17.

Um empresário rumo aos altares: Enrique Shaw

Conhecemos muitos empresários que procuraram viver, entre outras virtudes, a justiça e a caridade. Gostaria de me referir nesta última parte ao futuro Bem-aventurado Enrique Shaw, que chegará aos altares nos próximos meses, quando se definir o dia da beatificação18.

Proveniente de uma família aristocrática argentina, Enrique santificou-se nas circunstâncias cotidianas de sua vida: família numerosa, relações sociais e, o que mais nos interessa neste caso, por meio de seu trabalho como diretor de empresas. Viveu poucos anos, entre 1921 e 1962. Com uma vida espiritual profunda, difundiu em seu ambiente “o bom odor de Cristo” e se ocupou de formar cristãmente outros empresários. Por isso fundou, em 1952, a Associação Cristã de Dirigentes de Empresa. Assim se expressava Enrique Shaw:

“É preciso remediar as injustiças. […]. Considerar como dever de estado ser eficientes; para poder distribuir mais, é preciso produzir mais. É necessário formar empresários cristãos e dar-lhes um estilo de vida: contribuir para um mundo melhor, principalmente mediante a ação de cada empresário cristão em sua própria esfera. […]. Esta é uma missão de religião e vida: procurar santificar-nos por meio da profissão e santificar a profissão. Deve-se criar a consciência de uma função empresarial concebida cristãmente e, para isso, temos de usar o método da aplicação concreta. O sacerdote não só eleva a Deus, mas traz Deus aos homens na comunhão. […]. O empresário deve encarnar Cristo na empresa. A forma de fazê-lo é aplicando seus ensinamentos. Aplicar a doutrina cristã, a mensagem de Cristo, aos problemas concretos da função do empresário. Fazer com que as pessoas participem. O problema mais agudo para nós e para outros países, sobretudo nos menos desenvolvidos, é a falta de pessoas capazes nos níveis mais altos”19.

Shaw buscava melhorar as condições de trabalho na fábrica e fazer com que os colaboradores tivessem consciência de como seu trabalho contribuía para a produção. Por isso, considerava fundamental o papel do dirigente de empresa, como observava:

“Devemos trabalhar pela elevação do homem: somos os responsáveis pela ascensão humana do nosso pessoal, sem por isso cercear, de nenhuma maneira, sua legítima iniciativa e sua necessária responsabilidade”. O dirigente de empresa deve considerar cada um de seus colaboradores como uma pessoa com potencial, a quem deve facilitar a realização pessoal e ajudar a descobrir e desenvolver o melhor de si mesmo. “O 'clima' da empresa deve ser tal que contribua para a ascensão do homem e lhe ofereça, por seu trabalho e em seu trabalho, a melhor das oportunidades para seu desenvolvimento; o dirigente de empresa deve dar toda a liberdade possível para que cada um seja dono de seus atos e possa expressar sua personalidade”20.

Um dos aspectos mais destacados por quem o conheceu foi sua capacidade de escuta. Na vida cotidiana da empresa, Shaw não entendia o ato de escutar como uma técnica de liderança, mas como uma atitude do coração, profundamente ligada à maneira de exercer a autoridade. Inspirado na oração bíblica de Salomão, costumava insistir na necessidade de pedir a Deus “um coração que escute” como condição para governar com sabedoria, lembrando que, na tradição bíblica, escutar significa também compreender, discernir e cuidar das pessoas confiadas à nossa responsabilidade.

A escuta verdadeira, como Shaw a viveu, transforma a cultura interna de uma organização. Gera confiança, fortalece o sentido de pertencimento e abre espaços nos quais cada pessoa pode sentir-se reconhecida e respeitada. Em contextos de crise, Enrique Shaw fazia a si mesmo uma pergunta incômoda, mas necessária: “Pensamos mais nas pessoas do que na empresa?”.

O Papa Leão XIV, ao recordar os princípios da doutrina social da Igreja sobre a economia, sublinhava há poucos meses que “essa visão encontra um exemplo luminoso e próximo no venerável servo de Deus Enrique Shaw, empresário que entendeu que a indústria não era apenas uma engrenagem produtiva nem um meio de acumulação de capital, mas uma verdadeira comunidade de pessoas chamadas a crescer juntas. Sua liderança distinguiu-se pela transparência, pela capacidade de escuta e pelo empenho para que cada trabalhador pudesse sentir-se parte de um projeto compartilhado. Nele, a fé e a gestão empresarial se uniram de maneira harmônica, demonstrando que a Doutrina Social não é uma teoria abstrata nem uma utopia irrealizável, mas um caminho possível que transforma a vida das pessoas e das instituições ao colocar Cristo como centro de toda atividade humana.

Enrique promovia salários justos, desenvolvia programas de formação, preocupava-se com a saúde dos operários e acompanhava suas famílias em suas necessidades concretas. Não concebia a rentabilidade como um fim absoluto, mas como um aspecto importante para sustentar uma empresa humana, justa e solidária. Em seus escritos e decisões, percebe-se claramente a inspiração da Rerum Novarum, que pedia aos empresários ‘não considerar os operários como escravos; respeitar neles, como é justo, a dignidade da pessoa, sobretudo enobrecida pelo que se chama o caráter cristão’ (n. 15)”21.

O futuro Bem-aventurado havia conquistado o coração de seus empregados. São inúmeros os testemunhos que assim o manifestam. Na etapa final de sua doença, em 1962, diante da necessidade de receber transfusões de sangue para manter-se vivo, aproximadamente duzentas e sessenta pessoas — em sua maioria operários da fábrica de cristais Rigolleau, na qual ele trabalhava — dispuseram-se a doar seu sangue. Enrique Shaw expressou: “Posso dizer-lhes que agora quase todo o sangue que corre por minhas veias é sangue operário”22.

Shaw não conheceu São Josemaria, embora eu perceba uma profunda sintonia espiritual, como é bastante lógico tratando-se de duas almas santas. No entanto, passados os anos, alguns de seus familiares receberam a vocação para o Opus Dei. Entre eles, um filho sacerdote que exerce seu trabalho pastoral há décadas no Quênia.

Há um diálogo muito conhecido que mantiveram o Dr. Eduardo Ortiz de Landázuri, cujo processo de beatificação foi iniciado, e São Josemaria Escrivá. Eduardo havia se transferido de Granada para Pamplona para trabalhar na Universidade de Navarra, que estava em seus primeiros anos. Quando se encontraram em Pamplona, ele disse ao fundador do Opus Dei:

Bem, Padre, pediu-me que viesse a Pamplona para fazer uma universidade, e ela já está feita…

São Josemaria respondeu-lhe:

Não lhe pedi que fizesse uma universidade, mas que se fizesse santo fazendo uma universidade23.

Creio que é isso que São Josemaria diria hoje àqueles que trabalham em escolas de negócios inspiradas por seu espírito: santificar-se no trabalho docente e de pesquisa, na difusão de uma cultura cristã da empresa, buscando a excelência para servir, a partir daí, a toda a humanidade. A beatificação de Enrique Shaw, que se aproxima, é uma prova de que é possível alcançar a santidade nessa dimensão fundamental da existência humana.

Mons. Mariano Fazio, vigário auxiliar do Opus Dei.

Professor ordinário e ex-reitor da Pontifícia Universidade da Santa Cruz.


1 Testemunho de Francisco Ponz Piedrafita, outubro de 1998, p. 1, cit. em Javier Pampliega, La historia del IESE. Primeros pasos y desarrollo inicial. Un estudio inédito (1957-1960), Barcelona, 2009, p. 18; cfr. Francisco Ponz Piedrafita, IESE: 25 años, “Revista de Antiguos Alumnos” 15 (1984). Citado em A. Argandoña, Josemaría Escrivá de Balaguer y la misión del IESE en el mundo de la empresa, Studia et Documenta, vol. 5, Roma 2011, p. 132.

2 Instituto de Estudios Superiores de la Empresa, criado em Barcelona em 1958 pela Universidade de Navarra. Desenvolveu-se como uma iniciativa global com sedes em vários países, e é conhecido por sua abordagem humanista e pela adoção do método de caso, desenvolvido em colaboração com a Universidade de Harvard. Mais informações em https://www.iese.edu/.

3 Antonio Valero, Intervenção no ato com motivo da beatificação de Mons. Josemaría Escrivá de Balaguer, Fundador e Primeiro Grão-Chanceler da Universidade de Navarra, Barcelona, IESE, 9 de abril de 1992 (datilografado), p. 1. Citado em A. Argandoña, cit., p. 134.

4 Cfr. Javier Echevarría, Para alcanzar los mayores beneficios, “Revista de Antiguos Alumnos” 108, diciembre de 2007, p. 12, disponível em https://opusdei.org/pt-br/article/no-cinquentenario-do-iese/.

5 Nota do editor: a recente encíclica Magnifica Humanitas de Leão XIV resume estes princípios no capítulo 2.

6 São Josemaria Escrivá, Carta n. 14. Disponível em Cartas III, Rialp, 2026. Edição anotada por Luis Cano.

7 Entrevistas com Mons. Josemaria Escrivá, nº 12.

8 Compêndio da doutrina social da Igreja, n. 108. Neste sentido, o Papa Leão XIV destacou em sua primeira encíclica

Magnifica Humanitas, n. 50: “Por isso, a pessoa humana permanece sempre ‘a via da Igreja’ e o coração de todo o caminho autêntico de desenvolvimento humano integral”.

9 Ibid., n. 338.

10 São João Paulo II, Centesimus annus, n. 35. Itálico no original.

11 C. Dickens, Tempos Difíceis, capítulo II. Para contextualização desta obra, leia-se M. Fazio, El universo de Dickens. Una lección de humanidad, Rialp. Madrid 2015.

12 São João Paulo II, Centesimus annus, n. 42.

13 É Cristo que passa, 52.

14 São João Paulo II, Sollicitudo Rei Socialis, n.º 42. Ver também Ecclesia in America, n.º 58. Na Magnifica Humanitas, Leão XIV refere-se a este tema nos n.ºs 43, 78 e 234. Por exemplo, observa: “O Magistério recente tem insistido numa justiça social que exija um olhar a partir dos últimos. São João Paulo II falou de uma ‘opção ou amor preferencial pelos pobres’ que deve marcar as escolhas pessoais e sociais, enquanto o Papa Francisco denunciou uma ‘cultura do ‘descartável’ causadora de sempre novas formas de exclusão. Nesta perspectiva, a justiça social exige que se olhe para indivíduos e povos a partir dos mais vulneráveis: pobres, migrantes, refugiados, deslocados internos, vítimas de violência, pessoas que vivem nas periferias urbanas ou existenciais”.

15 Instrução, 05/1935/14/09/1950, nota 146. Citada por J. Echevarria, Carta Pastoral, 1º de abril de 2013.

16 Amigos de Deus, 172-173.

17 M. Schlag, Contra la idolatría del dinero, Rialp, Madrid 2018, pp. 209-210. Sobre o princípio da gratuidade e a lógica do dom, pode-se ver Bento XVI, Caritas in Veritate, n. 36.

18 Cfr. A Igreja terá 12 novos beatos: 11 mártires espanhóis e um leigo argentino - Vatican News

19 R. Estévez (2012). “Enrique Shaw: un hombre de gobierno humano en la sociedad civil”. Em Camusso, Marcelo; López, Ignacio; Orfali Fabre, María Marta, ed. Doscientos años del humanismo cristiano en la Argentina: el compromiso con la república, la democracia y el bien común. Buenos Aires: Editorial de la Universidad Católica Argentina. pp. 621-651.

20 S. Critto de Eiras, Un empresario en plenitud: Enrique E. Shaw y su eficaz desempeño, LID Editorial empresarial, Buenos Aires 2017, pp. 85-86.

21 Leão XIV, Mensagem à 31ª Conferência Industrial Argentina, 8/09/2025.

22 M. Stremi (2021). “Un empresario camino a los altares. La vida de Enrique Shaw, un padre de familia y empresario siendo levadura en el orden temporal”. Dios y el hombre 5 (1): e075.

23 “E. López Escobar y P. Lozano. Eduardo Ortiz de Landázuri, o médico amigo, Palabra, Madrid, 1994, p. 216.

Mariano Fazio, vicario auxiliar del Opus Dei. Profesor ordinario y ex rector de la Pontificia Universidad de la Santa Cruz