A Universalidade da Igreja

Resumo da intervenção de Mons. Fernando Ocáriz, vigário geral do Opus Dei, no Congresso A grandeza da vida corrente, Roma, 2002

Tanto nos escritos como nas pregações de [São] Josemaria, são muito frequentes as referências, mais ou menos extensas, à Igreja, com perspectivas diversas segundo os contextos; de um modo geral, destinam-se mais a ser alimento da vida espiritual dos seus ouvintes ou leitores do que a ter uma finalidade acadêmica.

Além disso, dedicou à meditação sobre a Igreja, duas das suas homilias 1, as quais constituem uma exposição e defesa vigorosa dos principais aspectos da doutrina eclesiológica católica, face aos erros que estavam a propagar-se na primeira década depois do Vaticano II, apesar da clareza e profundidade dos ensinamentos deste Concílio, em especial na Constituição Lumen gentium.

Ao pregar ou escrever sobre a Igreja, São Josemaria nunca escolhe um tema abstrato, baseia-se sempre na realidade viva do mistério de salvação, com uma veneração e amor inseparáveis –manifestação evidente – do seu amor apaixonado por Jesus Cristo. Porque, na verdade, “a Igreja é isto mesmo: Cristo presente entre nós; Deus que vem até à humanidade para salvá-la, chamando-nos com a sua revelação, santificando-nos com a sua graça, sustentando-nos com a sua ajuda constante, nos pequenos e grandes combates da vida de todos os dias” 2. Um amor à Igreja cheio de admiração perante a sua indefectível santidade original, sem ignorar, contudo, o pecado atual dos seus membros: “Gens sancta, povo santo, composto por criaturas com misérias: Esta aparente contradição marca um aspecto do mistério da Igreja. A Igreja, que é divina, é também humana, porque está formada por homens e os homens têm defeitos: omnes homines terra et cinis (Ecclo XVII, 31), todos somos pó e cinza” 3. Um amor que é gozoso: “Santa, Santa, Santa!, ousamos cantar à Igreja, evocando o hino em honra da Santíssima Trindade. Tu és Santa, Igreja, minha Mãe, porque foste fundada pelo Filho de Deus, Santo; és Santa, porque assim o dispôs o Pai, fonte de toda a santidade; és Santa, porque te assiste o Espírito Santo que mora na alma dos fiéis, a fim de reunir os filhos do Pai, que hão de habitar na Igreja do Céu, a Jerusalém eterna”4.

Para [São] Josemaria, a Igreja é, antes de tudo, a Igreja Universal: una, santa, católica e apostólica, dirigida pelos Bispos sob autoridade suprema do Romano Pontífice e, por isso romana: “Eu saboreio esta palavra: romana! Sinto-me romano, porque romano quer dizer universal, católico; porque leva a amar carinhosamente o Papa, il dolce Cristo in terra, como gostava de repetir Santa Catarina de Sena”5. Nestas afirmações como em outras muito semelhantes transparece claramente a eclesiologia reta, que reconhece a prioridade temporal e ontológica da Igreja universal, em concreto sobre cada Igreja particular 6, evitando, ao mesmo tempo, qualquer forma de universalismo unilateral. Efetivamente, São Josemaria teve sempre a plena e viva consciência de que a Igreja Universal se torna presente e opera – “inest et operatur”7 – nas Igrejas particulares. Assim se compreende a sua plena e incondicional adesão ao Sucessor de São Pedro, a sua união com os Bispos diocesanos, sempre afirmada e vivida como algo de essencial para a unidade da Igreja; “uma unidade que só o Papa dá a toda a Igreja; e o Bispo, em comunhão com a Santa Sé, à diocese” 8.

A contemplação do mistério da Igreja suscita, na alma cristã, esperança gozosa, porque “a força e o poder de Deus iluminam a face da Terra. O Espírito Santo continua a assistir à Igreja de Cristo, para que ela seja – sempre e em tudo – sinal erguido diante das nações, anunciando à Humanidade a benevolência e o amor de Deus (cfr.Is XI,12). Por maiores que sejam as nossas limitações, nós, homens, podemos olhar com confiança para os Céus e sentirmo-nos cheios de alegria: Deus ama-nos e liberta-nos dos nossos pecados. A presença e ação do Espírito Santo na Igreja são o penhor e a antecipação da felicidade eterna, dessa alegria e dessa paz que Deus nos prepara” 9.

Para concluir, mantendo-nos no contexto da universalidade da Igreja, dirijamos – com São Josemaria – um olhar a quem, sendo Mãe do Senhor, é Mater Ecclesiae. Como no Pentecostes, “Maria, na verdade, edifica continuamente a Igreja, reúne-a, mantém-na coesa. É difícil ter autêntica devoção à Virgem sem nos sentirmos mais vinculados aos outros membros do Corpo Místico e também mais unidos à sua cabeça visível, o Papa. Por isso, me agrada repetir: Omnes cum Petro ad Iesum per Mariam! – todos, com Pedro, a Jesus por Maria! E assim, ao reconhecermo-nos como parte da Igreja e convidados a sentirmo-nos irmãos na Fé, descobrimos mais profundamente a fraternidade que nos une à Humanidade inteira: porque a Igreja foi enviada por Cristo a todos os homens e a todos os povos (cfr. Mt XXVIII, 19)”10.

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1 São as homilias O fim sobrenatural da Igreja (28-V-1972) e Lealdade à Igreja (4-VI-1972), publicadas em 1973 e reunidas, depois, no volume Amar a Igreja, Madrid 1986, pp. 11-59. Sempre que nas notas não conste o Autor da obra citada, trata-se de São Josemaria.

2 É Cristo que passa, 131

3 Lealdade à Igreja, cit. p. 26. Sobre o amor à Igreja, na vida e nos ensinamentos de São Josemaría, cfr. J. Echevarría, Memoria del Beato Josemaría Escrivá, Madrid 2000, pp. 340-347. Ver também C. Burke, Una dimensión de su vida: el amor a la Iglesia y al Papa, em Mons. Josemaría Escrivá de Balaguer y el Opus Dei, Pamplona 1982, pp. 339-350.

4 Lealdade à Igreja, cit., p. 29-30

5 Ibidem, p.33

6 Cfr. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Carta Communionis notio 9.

7 CONCÍLIO VATICANO II, Decr. Christus Dominus, 11.

8 Carta 9-I-1932, 21.

9 Cristo que passa, 128

10 Idem, 139.