A televisão ao serviço da dignidade do homem

Há dois mil anos, os oradores do foro, desde Demóstenes a Cícero, eram os protagonistas da opinião pública. Por volta do ano mil, foi a vez dos copistas que transcreviam os textos gregos e latinos nos mosteiros; depois, também, os poetas, narradores e pintores da Idade Média e do Renascimento. Assim continuou até que, no século XX – com o desenvolvimento da rádio, e, sobretudo, com o aparecimento da televisão – os meios de comunicação multimédia se converteram em protagonistas da opinião pública.

Opus Dei - A televisão ao serviço da dignidade do homem

Longe de um catastrofismo estéril, São Josemaria revela uma visão claramente evangélica, estimulando a um compromisso construtivo.

Há dois mil anos, os oradores da praça pública, desde Demóstenes a Cícero, eram os protagonistas da opinião pública. Por volta do ano mil, foi a vez dos copistas que transcreviam os textos gregos e latinos nos mosteiros; depois, também, os poetas, narradores e pintores da Idade Média e do Renascimento. Assim continuou até que, no século XX – com o desenvolvimento da rádio, e, sobretudo, com o aparecimento da televisão – os meios de comunicação multimídia se converteram em protagonistas da opinião pública.

Contudo, o papel preponderante assumido pelos profissionais dos meios de comunicação não tem sido determinado apenas pelo desenvolvimento da tecnologia. As causas são muito mais profundas. Até metade do século XX, a política, na cultura ocidental, era um guia efetivo da humanidade e, deste modo, só através da autoridade dos políticos – fossem leigos ou clérigos – e como a sua aprovação, os oradores e escritores podiam influir na opinião pública. Depois da Segunda Guerra Mundial, as finanças e a macroeconomia tomaram as rédeas – primeiro no Ocidente e, depois, em todo o planeta – exercendo um poder globalizado e absoluto através dos meios de comunicação telemática e relegando a política para funções subservientes, de natureza meramente administrativa. E assim surge o papel preeminente dos profissionais da comunicação.

Já no princípio desta era telemática, São Josemaria Escrivá tinha diagnosticado – com intuição profética – tanto o enorme bem que podia proceder das perspectivas que se abriam no campo da comunicação, como a perigosa influência que os novos meios de comunicação podiam exercer se dominados por pessoas que, com a mira no lucro, prescindindo dos valores morais, fomentassem o hedonismo, a corrupção e a desonestidade.

E dizia também que o problema não está na novidade dos modernos meios de comunicação, mas sim nas pessoas, que são – como sempre – as únicas responsáveis do bem ou do mal. As descobertas científicas, os meios tecnológicos são um enriquecimento para a humanidade, sempre que estejam ao serviço da dignidade do homem.

São Josemaria alertava para os que se servem sectariamente dos meios de comunicação para desinformar e lesar a verdade: “Não oculto que me repugna o sensacionalismo de alguns jornalistas que dizem a verdade a meias. Informar não é ficar a meio caminho entre a verdade e a mentira. Isso nem se pode chamar informação, nem é moral; nem se podem chamar jornalistas aqueles que misturam, com poucas meias verdades, bastantes erros e mesmo calúnias premeditadas: não se podem chamar jornalistas porque não são mais do que as engrenagens — mais ou menos lubrificadas — de qualquer organização propaladora de falsidades, que sabe que serão repetidas até a saciedade, sem má-fé, pela ignorância e estupidez de muitos”[1].

Com a mesma nitidez com que se apercebia do perigo, indicava também o remédio: “Tarefa do cristão: afogar o mal em abundância de bem. Não se trata de campanhas negativas, nem de ser anti-nada. Pelo contrário: viver de afirmação, cheios de otimismo, com juventude, alegria e paz; ver com compreensão a todos: os que seguem a Cristo e os que O abandonam ou não O conhecem. - Mas compreensão não significa abstencionismo nem indiferença, mas atividade.”[2].

Não só me impressionou a visão de futuro de Josemaria Escrivá, mas também a solução que propunha. Longe de um estéril catastrofismo, mais do que indicar uma via de escape, São Josemaria revela uma abordagem evangélica, convidando a assumir um compromisso construtivo, recordando que para o cristão qualquer situação é ocasião de encontro com Cristo, através do trabalho realizado com espírito de serviço.

Este modo de compreender, de unir, de viver com a alegria e a paz de Cristo, levando ao próprio trabalho a visão positiva de quem acredita que o mal foi vencido, é o que me animou a procurar soluções sem me deixar vencer pelo peso de situações difíceis ou de uma cultura dominante de sinal contrário.

Certamente o compromisso dos profissionais dos media pressupõe uma responsabilidade muito maior, pelo facto de através deles, principalmente através da TV, se chegar a uma enorme quantidade de pessoas. De facto, nos seus primeiros 50 anos a TV conseguiu difundir modelos de vida e, lamentavelmente, com frequência foram modelos que não correspondem aos modos de pensar e de agir da maioria dos telespectadores. Modelos distantes de tradições e culturas das populações locais, que afinal servem os interesses de uma publicidade que quer deslumbrar o público com o fascinante “tudo é possível”, mas que acaba por provocar um distanciamento da parte do público. Trata-se, sem dúvida, de um abuso de poder que luta por impor os seus modelos que convêm a interesses nem sempre honestos, com uma violência mais eficaz do que a da força física.

São Josemaria via esse panorama à luz do Evangelho, como uma atualização da parábola do joio.

“Atravessamos uma época em que os fanáticos e os intransigentes - incapazes de admitir argumentos alheios - se refugiam, classificando de violentos e agressivos aqueles que são as suas vítimas. Enfim, chama-nos a atenção, quando se ouve tagarelar muito de unidade, e talvez seja difícil conceber quem possa tolerar maior desunião entre os próprios católicos, não já entre os homens em geral.

“Eu nunca faço considerações políticas, porque esse não é o meu ofício. Para descrever sacerdotalmente a situação do mundo atual, basta pensar de novo numa parábola do Senhor, a do trigo e do joio. “O Reino dos Céus é como alguém que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora[3]. É claro, o campo é fértil e a semente é boa; o Senhor do campo lançou às mãos cheias a semente no momento propício, e com arte consumada, também, preparou uma vigilância para proteger a recente sementeira. Se depois apareceu o joio, é porque não houve correspondência – os cristãos especialmente - adormeceram, e permitiram que o inimigo se aproximasse.

“Quando os servidores irresponsáveis perguntam ao Senhor por que cresceu o joio no seu campo, a explicação salta aos olhos: Inimicus homo hoc fecit (Mt 13,28). Foi foi o inimigo! Nós, os cristãos, que devíamos estar vigilantes para que as coisas boas postas pelo Criador no mundo se desenvolvessem a serviço da verdade e do bem, nós adormecemos - triste preguiça, esse sono! -, enquanto o inimigo e todos os que o servem se moviam sem descanso. Bem vemos como cresceu o joio: que semeadura tão abundante e por toda a parte!”[4].

O panorama poderia ser desanimador: mas visto com os olhos da fé - como fazia São Josemaria – converte-se num desafio entusiasmante.

“O Senhor – repito – deu-nos o mundo por herança. E é necessário termos a alma e a inteligência despertas; temos que ser realistas, sem derrotismos. Só uma consciência cauterizada, só a insensibilidade produzida pela rotina, só o aturdimento frívolo podem permitir que se contemple o mundo sem ver o mal, a ofensa a Deus, o prejuízo, às vezes irreparável, que se causa às almas. Temos que ser otimistas, mas com um otimismo que nasça da fé no poder de Deus - Deus não perde batalhas -, com um otimismo que não proceda da satisfação humana, de uma complacência néscia e presunçosa”[5].

Com efeito, a atitude cristã não se pode reduzir a lamentações estéreis nem a um abandono dos campos onde se disputam as batalhas a favor da verdade e da dignidade das pessoas. “Hoje não bastam mulheres ou homens bons. - Além disso, não é suficientemente bom aquele que só se contenta em ser... quase bom: é preciso ser ‘revolucionário’. Perante o hedonismo, perante a carga pagã e materialista que nos oferecem, Cristo quer anticonformistas, rebeldes de Amor!”[6] . Uma rebeldia que necessariamente alcança frutos espirituais e de justiça social. “O apostolado cristão não é um programa político nem uma alternativa cultural: consiste na difusão do bem, no contágio do desejo de amar, numa semeadura concreta de paz e de alegria. E desse apostolado derivarão sem dúvida benefícios espirituais para todos: mais justiça, mais compreensão, mais respeito do homem pelo homem”[7].

Quando nos finais dos anos setenta descobri a mensagem de São Josemaria, dirigia uma holding financeira que promovia projetos de infraestrutura em vários continentes e não me ocupava já do jornalismo nem de emissões televisivas. Impressionou-me a precisão profissional com que o fundador do Opus Dei se referia ao apostolado da comunicação; é uma preocupação que está presente desde os começos do seu trabalho apostólico. São Josemaria preocupava-se com o bem das almas, também com os meios de comunicação, cujo enorme potencial de influência sobre a sociedade intuía de forma clara. Para este trabalho era necessária competência profissional e amor à verdade. Entre as demonstrações dessa preocupação pelo apostolado na opinião pública, é bom recordar a sua tarefa docente na incipiente Escola de Jornalismo de Madrid (em 1940), e a promoção de numerosas Escolas e Faculdades de Ciências da Informação.

A propósito disto podemos recordar também um episódio narrado num dos livros sobre São Josemaria. Depois de seguir na televisão uma transmissão desportiva, refletiu em voz alta: “Todos estes progressos, grandes e pequenos, têm de levar-nos a dar muita glória a Deus. Todo o trabalho humano nobre, bem realizado e bem empregado, é um instrumento prodigioso para servir a sociedade e para santificar-se... Suponho que vos terá acontecido o mesmo que a mim: enquanto víamos a televisão, era-me fácil levantar o coração ao céu, dando graças por essa perfeição técnica das imagens, do colorido... E pensava também – porque é uma ideia que me ronda sempre a cabeça – no bem e no mal que se pode fazer com esse e com todos os meios de comunicação. Bem? Sim, porque são um veículo formidável para chegar a muitas pessoas, captando-lhes a atenção de um modo muito atrativo. Mal? Também, porque com as imagens e com o texto se pode ir metendo doutrina errônea, moral falseada. E as pessoas engolem esses erros e essas falsidades sem perceber, como se fossem ouro puro. Por isso insisto tanto em que o apostolado através dos meios de comunicação terá sempre muita, muita importância. E os católicos que tiverem essa vocação profissional, os jornalistas, os comunicadores da imprensa, rádio e televisão devem estar aí, presentes e bem ativos: ausentar-se seria desertar”[8].

Nos finais dos anos 80, refletindo sobre estas sugestões de São Josemaria no âmbito do apostolado nos meios de comunicação, dei-me conta da necessidade de entender os processos utilizados pela televisão, desde há cerca de quinze anos, para se ter introduzido em todo o mundo, até ao ponto de propor modelos de vida praticamente ateus.

Talvez seja interessante percorrermos juntos esse caminho de investigações e reflexões

Até meados do séc. XVIII, a cultura humanista – clássica e cristã – estava na base de todas as grandes civilizações. E, assim, inspirava a política e a comunicação em todas as suas manifestações. Mas no decurso do séc. XX, com o aparecimento das ideologias totalitárias na Europa – fascistas e comunistas – o culto da força física e do poder militar superou a cultura humanista. As democracias ocidentais, para se defenderem desses perigos, propuseram à opinião pública as maravilhas da ciência e da técnica, até estabelecerem duas categorias absolutas, apresentadas cada vez mais frequentemente pelos meios de comunicação como estrelas polares para alcançar a felicidade individual.

A persistência destas ilusões, ao longo dos anos setenta e oitenta, fez com que os interesses financeiros e da macroeconomia – na mira de lucros sem limites – tenham superado toda a razão de Estado e toda a lei moral. Após a queda do muro de Berlim, os interesses econômicos dos países mais desenvolvidos exerceram um poder globalizador e hegemônico através da comunicação (na imprensa, na televisão ou na Internet). Simultaneamente, um materialismo desenfreado reduziu e marginalizou o papel da moral na vida das pessoas, e atribuiu um valor último e absoluto ao dinheiro, ao êxito e ao interesse pessoal.

A comunicação televisiva desenvolveu-se neste ambiente. O entretenimento televisivo, de modo particular, foi-se submetendo, cada vez mais, aos negócios publicitários. Assim, a preparação de qualquer filme, espetáculo, concurso, jogo ou talk-show, está direcionada unicamente para conseguir o maior número possível de telespectadores, considerados como meros consumidores. Tendo em conta que a violência e o sexo atraem, também na TV, os instintos básicos das pessoas comuns, na ficção televisiva continuam a mostrar-se cenas de assassinatos, de opressões físicas e psicológicas, amplamente condimentadas com pornografia. A difusão da permissividade consumista e do relativismo moral, fez com que toda a programação televisiva se tenha convertido a um agnosticismo religioso persuasivo, que se apresenta e se exalta como 'respeito pelos não crentes'. Assim, pouco a pouco, toda a programação televisiva chegou a ser etimologicamente ateia; até ao ponto de se tornar ofensiva para a população mundial que é e se declara crente.

Um inquérito exaustivo, realizado recentemente nos Estados Unidos entre telespectadores e profissionais da televisão, revelou uma realidade cuidadosamente ocultada pelos meios de comunicação. Perguntou-se a um amplo ‘universo’ de homens e mulheres: “Acredita em Deus; frequenta alguma igreja?” 96% dos telespectadores respondeu que crê em Deus e 47% que frequenta uma igreja. Entre os profissionais de televisão 25% respondeu que crê e 7% que frequenta uma igreja. O que quer dizer que a televisão é concebida e realizada por um grupo minoritário de intelectuais 'não crentes' e transmitida a telespectadores, na sua grande maioria, crentes.

Com tudo o que expliquei, quero dizer que não é fácil fazer programas de êxito na TV com transmissões de inspiração cristã; não é fácil, mas também não é impossível.

Faço esta afirmação com base numa experiência pessoal, que seguidamente tentarei sintetizar.

Levado pela premência e pelo zelo apostólico que São Josemaria transmitia, há doze anos alguns amigos italianos, com desejos de influenciar o ambiente de forma cristã, pensamos: deixemos de nos lamentar de uma televisão nociva, banal, consumista, vulgar; e não alimentemos a ilusão de enfrentar o elefante das grandes emissões televisivas – hedonistas e permissivas – com as pequenas emissoras locais, tecnicamente inadequadas, cheias de boas intenções, mas sem recursos financeiros e artísticos. Com os recursos financeiros e intelectuais, que consigamos arranjar, vamos conceber e realizar programas de boa qualidade, que realmente possam competir no mercado mundial da emissão televisiva – seja ela qual for -, e vamos propor aos telespectadores programas interessantes, baseados na vida quotidiana ou nos textos da grande cultura humanística, mesmo da que foi divinamente inspirada.

Assim nasceu Lux Vide, sociedade anônima com um capital de oito milhões de liras, destinada à produção de ficção televisiva de boa qualidade e do agrado das famílias. Há dez anos Lux Vide, além de outros programas de ficção, planeou a realização de uma Bíblia televisiva, considerada como a pedra angular, sobre a qual se reestruturaria o edifício de uma audiência televisiva, não contaminada pela antropologia iluminista nem pelos paroxismos da violência e do sexo reduzido a mera atividade física, desligado do amor pessoal.

O projeto de uma série de vinte episódios está hoje praticamente concluído, com a realização e emissão de 16 episódios do Antigo Testamento e 3 do Novo Testamento. Trabalha-se agora na edição do último episódio da série: O Apocalipse.

Foi possível realizar um projeto tão complexo graças à concepção inteligente e harmoniosa que um grupo de peritos biblistas (católicos, protestantes, ortodoxos, judeus e muçulmanos) aplicou, em primeiro lugar, ao desenho geral da obra e depois ao desenvolvimento de cada episódio, proporcionando a roteiristas, a realizadores e a produtores os elementos chave para interessar ao grande público. Tratava-se, neste caso, de um público composto na sua maioria por pessoas sem cultura bíblica específica; mas também por conhecedores da Bíblia e, por fim, por exegetas altamente especializados. O grupo de peritos – encabeçado por Mons. Gian Franco Ravasi, professor de exegese bíblica e membro da Comissão Pontifícia Bíblica – soube escolher os temas essenciais do argumento de cada episódio; e conseguiu, sobretudo, transpor o texto bíblico – sem o falsear – para cenas sintéticas de tal modo que, respeitando o espírito e a letra da “revelação”, tivessem a capacidade de envolver o público num atraente espetáculo de ficção dramatizada.

Qual o impacto destes episódios nos homens e mulheres que veem televisão mas tinham perdido – depois de decênios de “secularização” da sociedade materialista e hedonista – o sentido profundo da fé em Deus?

Pretendemos no nosso projeto – de acordo com os peritos – apoiar os nossos filmes na Bíblia, que nos revela o sentido constante da presença de Deus na vida do Universo; do Deus que criou o homem e a mulher. Portanto, a partir de Abraão – o primeiro episódio da série – tentamos apresentar a vida das principais personagens numa escuta constante da voz do Criador, dispostas a cumprir, sempre e a todo o custo, a Sua suprema Vontade.

Tentamos desenvolver, em todos episódios da série, uma narração, não filológica do texto, evitando cair também – como por vezes aconteceu no cinema americano – numa espetacularidade moderna, de personagens isoladas do contexto bíblico.

Concordamos com os roteiristas e realizadores quanto ao uso das técnicas de comunicação televisiva, experimentadas nas telenovelas e nos telefilmes. Conseguimos, com esses métodos, envolver o grande público, através das emoções, dos sentimentos e do apelo à fantasia. Simultaneamente, procuramos transmitir um conhecimento essencial da mensagem bíblica que suscitasse a curiosidade de ir ler o texto escrito.

Depois da experiência da Bíblia televisiva, não estou pessimista.

Pensem bem: estes vinte episódios do Antigo e do Novo Testamento tiveram sempre, em 143 países de todos os continentes, uma audiência superior à de qualquer outra emissão. Na Itália, por exemplo, o episódio de José teve a mesma audiência que o Festival da Canção de São Remo e, na América, superou os Emmy, os Óscares da televisão. O episódio de Jesus – visto em Maio de 2000, nos Estados Unidos, por 40 milhões de espectadores – duplicou a audiência da CBS e bateu, nessa mesma tarde, o share que outra emissora americana detinha desde há dois anos, com a transmissão de “Milionário”, concurso que atribui todos os dias um prêmio de um milhão de dólares.

É errado, pois, dizer que as pessoas queiram o “tele-lixo”, cheio de violência e de sexo; pelo contrário, a nossa experiência tornou claro, com a objetividade dos índices de audiência, como o público – o grande público – tem uma expectativa cultural mais elevada do que aquela que a televisão habitualmente lhe propõe e, também ainda, como o argumento do sagrado se agradece e é compreendido. Posso dizer que, como consequência da programação da Bíblia e do seu êxito, se abriu uma nova perspectiva a nível mundial: uma ficção de carácter religioso que conta já com dezenas de títulos.

Certamente, é necessário que os filmes culturais e de argumento sagrado sejam concebidos e realizados cuidadosamente e com grande profissionalismo, e por bons realizadores, interpretados por bons atores. Não se deve ter a presunção de pensar que, para narrar a verdade revelada ou a vida dos santos, basta boa intenção sem preciso ter em conta a expectativa justa do público de uma alta qualidade técnica e artística.

Quis citar esta experiência levada a cabo pela Lux, embora circunscrita, não para celebrar um feliz êxito de comunicação em televisão, mas para indicar métodos e comportamentos de concepção e produção de programas, capazes de estabelecer uma relação ativa com o grande público das audiências televisivas e que – é necessário salientar – permitam aos trabalhadores da distribuição, da emissão e da publicidade, fazer bons negócios. Isto revela que as propostas culturais e o recurso a valores humanos e transcendentes não são fator de risco nem de fracasso.

Julgo, portanto, poder afirmar que esta é uma via profissional possível, aberta a quem, no futuro, queira dedicar-se à concepção e transmissão de boa comunicação.

Chegou o momento de os católicos abandonarem os caminhos da passividade, da escuta e da discussão teórica sobre o uso dos meios de comunicação. Estas atividades propedêuticas têm a sua utilidade, mas há já cinquenta amos que os católicos discutem sobre a importância da comunicação. O que têm a fazer é arregaçar as mangas, fazer uso das suas capacidades intelectuais e culturais, descobrir recursos empresariais, formar bons escritores, bons roteiristas, bons realizadores, enfim, aventurar-se no mercado livre, apontando para cima, sem provincianismos nem preguiças minimalistas, sem ciúmes nem protagonismos.

O Santo Padre João Paulo II, no encerramento do Ano Santo, repetiu uma expressão muito cara a São Josemaria e que constitui um motivo de esperança e de empenho nos diversos campos da evangelização: Duc in altum![9].

Atas do Congresso "A grandeza da vida corrente", Vol. XII Comunicação e cidadania, EDUSC, 2004.



[1] Entrevistas com Mons. Josemaria Escrivá, 86.

[2] Sulco, 864.

[3] Mt 13, 24-25.

[4] É Cristo que passa, 123.

[5] Ibidem, 123

[6] Sulco, 128.

[7] É Cristo que passa, 124

[8] Recolhido por Pilar Urbano. O homem de Villa Tevere: Os anos romanos de Josemaria Escrivá, São Paulo, Quadrante, 1996.

[9] Lc 5,4; Cf. João Paulo II, Carta Apost. Novo Millenio Ineunte, 1; Caminho, 792; Amigos de Deus21, 23; Cristo que passa, 159.