A perene actualidade de uma mensagem

A cultura é ainda muito sensível ao exemplo dos santos .Uma injeção de esperança, portanto, para todos aqueles que amam a Igreja: o testemunho do cristão não está condenado à esterilidade, mas a sua fecundidade está ligada à santidade pessoal.

Aquilo que o mundo contemplou na Praça de S. Pedro, na manhã de 6 de Outubro de 2002, durante a canonização do Fundador do Opus Dei, merece uma reflexão atenta. Quem tiver observado aquela multidão, quem tiver olhado para aquelas pessoas, quem sentiu o silêncio que acompanhava a cerimônia (não esqueçamos que era uma Missa, não uma festa popular), é impossível que não tenha sido invadido pelo pensamento de que, na realidade, não se pode falar, sem mais, sem medo de mentir, de um hipotético “deserto de Deus” no mundo atual, de uma sociedade, definitivamente “secularizada”. A cultura, e não só a ocidental (na Praça estavam presentes fiéis de 84 países, entre os quais, muitos não europeus, asiáticos e africanos), é ainda muito sensível ao exemplo dos santos. O milagre, a ideia de que precisamos de uma ajuda para a nossa fraqueza, não pertence ao mundo lendário e não é redutível a fugas para o irracional.

Uma injeção de esperança, portanto, para todos aqueles que amam a Igreja: o testemunho do cristão não está condenado à esterilidade, mas (e aqui se inserem as presentes considerações) a sua fecundidade está ligada à santidade pessoal. Temos muito que aprender com os santos, mas sobretudo devemos evitar alguns equívocos.

Podemos olhar a figura de um santo sob diversos pontos de vista, alguns dos quais, infelizmente, nos podem induzir em erro, enquanto outros se encontram no caminho certo, mas na direção errada. Por exemplo: inserem-se no primeiro caso as abordagens de cariz devocional e intimista. De fato, o relevo que se dá aos elementos ”místicos” induz ao esquecimento de que o santo é sempre um sinal de contradição, já que esta abordagem suprime o escândalo, lima as arestas, neutraliza o radicalismo de qualquer mensagem autenticamente evangélica.

O segundo erro é aquele em que incorre quem se coloca numa perspectiva intelectualista e dá prioridade à investigação das marcas deixadas pelo santo na cultura do seu tempo e da sua incidência nos modelos de vida dominantes. O seu objetivo é mostrar a atualidade da mensagem que vem dos santos, enquanto o primeiro vinca o seu caráter retrógrado. Neste caso o modelo proposto é a exceção, não o exemplo; enquanto no outro é-nos apresentado como modelo o profeta.

Espero que nenhum destes esquemas seja aplicado à figura de São Josemaria Escrivá. Mal grado a aparente antinomia, estes modelos coincidem num ponto: para o primeiro, o santo é o homem do mistério, alguém que vive numa dimensão própria, longe das realidades terrenas, inteiramente absorvido no contacto com o sobrenatural. Para o segundo, o santo tem uma influência sobre os outros dificilmente calculável, precisamente pelo caráter fraturante da sua mensagem, pela sua capacidade de inverter o estilo de vida dominante. O equívoco comum é o de quebrar a unidade indissolúvel, que é talvez a característica mais evidente da santidade.

O erro está em adotar um método de observação unilateral, privilegiando um dos dois polos que necessariamente concorrem para determinar o ponto de partida e, ao mesmo tempo, a meta da santidade. Refiro-me à fusão da contemplação e da ação a que São Josemaria chamava unidade de vida. Ele era, acima de tudo, um homem de oração; a primeira ocupação a que se dedicava cada dia era a procura do diálogo com o Senhor; transformava cada gesto e cada atividade em oferta a Deus. Contudo, na oração não procurava o isolamento do mundo, mas o estímulo para se lançar com todas as forças na aventura de transformar este mundo segundo o espírito de Cristo O seu ponto de partida era a contemplação do mistério de Deus encarnado para a nossa salvação. E desde aqui, chegava ao amor incansável pelos homens que o levava a consumir-se no desejo de conduzi-los a Deus: era este o objetivo final que, por sua vez, o levava à necessidade de rezar mais ainda.

Tudo isto em perfeita e contínua harmonia com o ritmo habitual dos dias. Ele ensinou a procurar transformar em plenitude de amor, as ocupações mais banais, os gestos mais comuns, as atividades que devemos realizar sempre e que somos capazes de fazer até de olhos fechados. O cinzento da vida quotidiana, o óbvio das coisas pequenas, a banalidade do aqui e agora constituem, para São Josemaria, o âmbito e a matéria da santidade. É aqui que Deus nos espera. Ora, os dois erros a que atrás nos referimos incluem a evasão do quotidiano. Quem entende a oração como uma experiência excepcional de contacto com Deus, limitada aos momentos altos em que a alma toca o vértice da união, necessariamente a separa do contexto, tantas vezes agitado, das ocupações diárias. Mas também o faz quem concebe o santo como um oráculo cuja palavra está para além do tempo, o homem decidido a gestos simbólicos, com um significado demasiado profundo para poder ser descodificado sem recurso a um porvir inexprimível.

São Josemaria, o santo do quotidiano

São Josemaria foi o santo do quotidiano. A sua mensagem é simples e linear, acessível a todos, mesmo às crianças e aos analfabetos: “[Deus] chama cada um à santidade, a cada um pede amor: jovens e velhos, solteiros e casados, sãos e doentes, cultos e ignorantes, trabalhem onde quer que trabalhem, estejam onde quer que estejam” (Amigos de Deus, nº 294). E, para ser santo, não é preciso aspirar a grandes gestas: “Pensando naqueles que entre vós, com o correr dos anos, ainda se dedicam a sonhar - em sonhos vãos e pueris , como os de Tartarin de Tarascon – com a caça de leões nos corredores da sua casa, onde se calhar, não há senão ratos e pouco mais, pensando neles, insisto, lembro-vos a grandeza do caminhar com espírito divino no cumprimento fiel das ocupações habituais de cada dia, com essas lutas que enchem de alegria o Senhor e que só d’ Ele e de cada um de nós são conhecidas” (Ibid, nº 8). Noutro ponto, mais sucintamente: “Queres deveras ser santo? Cumpre o pequeno dever de cada momento, faz o que deves e está no que fazes” (Caminho, nº 815)

É verdadeiramente uma mensagem para todos, simples, linear, como acabamos de dizer. E é tudo? Sim, no essencial não há mais nada a acrescentar. Qualquer um de nós se poderia interrogar se esta mensagem nos diz ainda alguma coisa hoje, se a sua atualidade permanece ainda após o Concílio Vaticano II. Na realidade, como escreveu Paulo VI, a proclamação universal à santidade pode-se considerar “o elemento mais característico de todo o Magistério conciliar e, por assim dizer, o seu fim último” (Motu proprio Sanctitas clarior, 19.3.1969). Esta doutrina, poder-se-ia pensar, foi já amplamente assimilada pela teologia, pela pastoral e, o que é mais importante, pela consciência dos fieis. Viremos a página. São Josemaria esgotou a sua própria missão. Não há mais nada de específico e de original a dizer. A sua mensagem dissolveu-se e desapareceu, como o sal, no patrimônio doutrinal da Igreja. É justo reconhecer-lhe uma função histórica no interior daquela realidade carismática, amadurecida na Europa no início do séc. XX, que com o seu dinamismo, preparou o Concílio no plano espiritual e teológico. Mas esta é uma história já concluída. Agora, os novos fenômenos sociais e culturais suscitam outras necessidades; o mundo espera novas respostas do Evangelho.

No entanto, o Decreto Pontifício sobre a heroicidade das virtudes do então Servo de Deus Josemaria Escrivá, referia-se à perene atualidade da sua mensagem: “Esta mensagem da santificação das realidades terrenas e nas realidades terrenas revela-se providencialmente atual na situação espiritual da nossa época, tão solícita na exaltação dos valores humanos, mas também tão propensa a ceder a uma visão imanentista que entende o mundo como separado de Deus. Por outro lado, ao convidar o cristão a procurar a união com Deus através do trabalho - tarefa e dignidade perene do homem sobre a terra - a atualidade desta mensagem está destinada a perdurar para além das mudanças dos tempos e das situações históricas, como fonte inesgotável de luz espiritual”.

Para compreender isto, é preciso partir de conceitos de base que não sejam parciais nem unilaterais. A mensagem do santo não está naquilo que diz, mas naquilo que faz, e é nisto que se encontra, não só o principal critério hermenêutico daquilo que diz, mas também o segredo da sua incidência histórica. Do ponto de vista espiritual (e eu diria também teológico, admitindo que a vida dos santos é teologia viva), não tem sentido limitar a função do santo à herança cultural que deixou e fazer dele, a todo o custo, o mestre de uma escola de pensamento. Com o seu magistério quotidiano de santidade, o Fundador do Opus Dei abriu um caminho que cada cristão deve percorrer. De alguma maneira se pode afirmar que a obra da redenção recomeça todos os dias cada vez que um cristão nasce – com o batismo - para a vida do Espírito. É sobretudo por esta razão que ele será sempre atual.

Descobrir o rosto de Cristo no trabalho

O Fundador do Opus Dei ensinou a procurar Deus “bem no meio da rua”, como ele gostava de dizer. A sua especificidade consiste em ter insistido naquilo que, em boa verdade, se pode considerar como o problema chave para aqueles que são chamados a viver a fé no bulício do mundo, onde é muito difícil encontrar espaços de quietude e de recolhimento, onde tudo é fonte de dispersão, onde a pressão do trabalho e dos prazos tende a transformar-nos em autômatos. Também aqui a coerência com a lei moral se torna muitas vezes heroica e é neste contexto que São Josemaria nos ilumina, e que a eloquência do seu exemplo nos convence de que também nós seremos capazes. Na sua mensagem encontramos as armas que nos permitirão enfrentar o esforço da santidade.

A atualidade de São Josemaria está na profundidade da sua união com Cristo. Jesus será sempre contemporâneo de cada criatura. Chegar até Ele num contexto em que tudo parece afastar-nos d’ Ele não é uma ilusão. Agora, temos a prova de que é possível encher de amor de Deus as pequenas ocupações que se sucedem no decurso dos nossos dias. É possível não perder um segundo, não nos concedermos um afrouxamento de tensão, não nos permitirmos omissões. É preciso ir além das próprias forças mas é possível, basta recordar que a graça nos dá a capacidade para isso e que a graça vem dos sacramentos (com quanta força pregou São Josemaria a necessidade de recorrer com frequência à confissão e que irresistível fascínio provém das páginas que escreveu sobre a Eucaristia e sobre a oração). É aqui que se forja o santo: “Santo sem oração?... – Não acredito nessa santidade” (Caminho, nº 107). “O caminho que conduz à santidade é o caminho de oração; e a oração deve enraizar-se pouco a pouco na alma, como a pequena semente que se tornará mais tarde árvore frondosa.” (Amigos de Deus, nº 295). Voltando, assim, ao início: São Josemaria ensinou uma oração que não tem nada de devocionismo estéril, uma oração que se entrelaça com o trabalho de todos os dias até se fundir com ele. Uma oração que, no trabalho, nos faz descobrir o rosto de Cristo.

Mons. Flavio Capucci Studi Cattolici, 501, Novembro, 2002