A Juventude de um Santo

Seria possível estudar muitas características dos santos, pois na quase infinita variedade de santos que a Igreja nos dá a conhecer, há vários traços em comum que não podem faltar em nenhum deles. O traço que quero realçar hoje é a juventude, o espírito jovem, pois a juventude é algo mais que os anos, é um espírito, uma atitude face à vida.

Bibliografia e ensaios
Opus Dei - A Juventude de um Santo

Seria possível estudar muitas características dos santos, pois na quase infinita variedade de santos que a Igreja nos dá a conhecer, há vários traços em comum que não podem faltar em nenhum deles. O traço que quero realçar hoje é a juventude, o espírito jovem, pois a juventude é algo mais que os anos, é um espírito, uma atitude face à vida e à morte que irradia frescor e alegria. Todos os santos, mesmo os que chegaram a idades avançadas, possuem este espírito, ainda que em alguns possa tornar-se mais evidente que em outros. O segredo desta atitude jovem reside na intimidade com Deus, onde o santo vai buscar a confiança, a "desfaçatez", a segurança e o otimismo de quem se sabe sempre em boas mãos, sempre protegido, sempre querido, sempre acarinhado. E nesta relação com o seu Deus, o santo descobre sobretudo - e faz descobrir aos outros - o fato de que Deus é Pai. Ensinou-o expressamente Jesus Cristo, que fala dele em muitas ocasiões, especialmente, de modo muito claro, na sua resposta aos que lhe pediam que os ensinasse a rezar: 'Vós, pois, rezai assim: Pai Nosso que estais nos Céus?' (Mt. 6, 9).

Um bom filho, mesmo que seja adulto, em face de seu pai sempre terá facilidade em manter essa atitude de confiança e segurança, de abandono e despreocupação, pois sabe que o seu pai o ama e o ajudará dentro das suas possibilidades, por muito grave que seja a situação.

O espírito jovem em São Josemaria

Toda a sua vida quis que o considerassem jovem; costumava dizer que ficava incomodado se alguém lhe recordava os seus setenta anos, pois só tinha sete. Dizia isto indicando este número com os dedos. Gostava muito das orações que se rezavam, no início da missa, aos pés do altar antes da reforma litúrgica: Ad Deum que laetificat iuventutem meam? (Sal 42, 4) Pelo que acabo de dizer, é lógico também que Deus fizesse descobrir rapidamente a São Josemaria esta extraordinária e consoladora verdade de que Deus é Pai. Todas as instituições da Igreja apresentam este traço daquilo a que se chama filiação divina, mas o fundador do Opus Dei aprofundou tanto nela, que o Senhor lha fez ver como o fundamento do espírito que transmitiu.

Nele, o espírito jovem manifestava-se, por exemplo, na naturalidade do seu agir e do seu relacionamento com os outros. Durante os vinte e cinco anos que tive a dita de ser testemunha da sua vida, e de ter ocasiões para um contacto direto, nunca notei nele nada de afetação, nem na sua atitude, nem nas suas palavras. Tinha a simplicidade do menino pequeno, que faz e diz o que nesse momento considera acertado e se mostra diante de todos sem nada de sinuoso, emaranhado, falso, porque não tem medo àquilo que dirão. Sempre insistiu conosco para não termos respeitos humanos no momento de aproximar as pessoas de Deus ou de cumprir o nosso dever. Recordo o dia em que cheguei a Roma, em 1963, para estudar ciências da educação num centro internacional para mulheres do Opus Dei, e o Padre me recebeu com outras pessoas. Falou-nos seriamente de que teríamos de estudar muito, pois, até então, outras muitas tarefas quase não nos tinham permitido fazê-lo. Era um momento sério e importante, mas nem por isso havia presunção nas suas palavras. Pelo contrário, a sua conversa era repassada de sentido comum, ilustrada com expressões originais e divertidas, ao ponto de não ter podido conter o riso, ainda que não fosse ocasião para isso.

As crianças costumam ser otimistas. Estão cheias de esperança, sabem que, perante qualquer problema, aí estão os pais para resolvê-lo. São Josemaria viveu esse otimismo, se bem que com uma perspectiva sobrenatural, durante toda a sua vida. O otimismo, no cristão, não é inconsciência nem temeridade, mas procede da visão sobrenatural, isto é, da fé e da esperança. Sabe que tudo correrá bem porque é Deus quem decide sobre o destino de cada homem. Para quem ama a Deus, tudo concorre para o bem (Rom. 8, 28), repetia São Josemaria com muita frequência, seguindo o ensinamento de são Paulo. Mons. Escrivá tinha igualmente o dom de transmitir esse otimismo aos outros, sobretudo aos seus filhos. Desde que me incorporei no Opus Dei, estive no começo de bastantes projetos difíceis, em geral com muito poucos meios e sem experiência: uma Escola-Residência, a Escola de Enfermeiras de Pamplona, o começo do trabalho apostólico do Opus Dei na Suíça? Saber que São Josemaria esperava isso de mim, porque Deus o esperava dele, era suficiente para ter a certeza do 'êxito' da empresa em questão.

Logicamente, uma pessoa otimista é uma pessoa alegre, como são alegres as crianças. O fundador do Opus Dei foi sempre alegre, capaz de fazer rir nos momentos mais difíceis. Este traço era tão notável nele que um livro que compendia algumas recordações sobre Josemaria Escrivá se intitula Mestre do bom humor (J.L. Soria, Mestre de bom humor).

A juventude é magnânima, espera muito de si mesma. Deseja fazer coisas grandes

A juventude é magnânima, espera muito de si mesma. Deseja fazer coisas grandes, fazer da sua vida algo que valha a pena. São Josemaria esperava chegar à meta mais alta que se pode alcançar: a santidade. Aos jovens da minha época coube-nos viver duas guerras: a civil espanhola e a segunda mundial. Estas profundas experiências de dor e morte levaram-nos a aprofundar no sentido da vida. Assim foi também o meu caso. Para fazer algo que valesse a pena - a vida é curta, pensava -, decidi estudar Medicina, porque era a única coisa que podia apresentar-se no meu horizonte, até que conheci o Opus Dei. Nesse momento descobri que o que realmente valia a pena era o que Josemaria Escrivá transmitia em todos os seus ensinamentos: viver para Deus, fazer tudo por Ele e levar-lhe almas. Era o maior empreendimento que se podia acometer e penso que o fato que vou relatar o ilustra bem: recordo que estando eu em Pamplona, a trabalhar na Escola de Enfermeiras do então Estudo geral de Navarra, que depois foi reconhecido como Universidade, fomos, a enfermeira chefe e eu, falar com o decano, o Professor Juan Jiménez Vargas, que já faleceu, sobre a possibilidade de ter um edifício próprio no hospital de Navarra. Tinham-nos oferecido um pavilhão completamente desmantelado, que o arquiteto tinha assegurado que não reunir condições e, como não tínhamos dinheiro para outra coisa, estávamos bastante abatidas. Então, o Professor, que era muito parco em palavras, tirou do bolso um papel e começou a alisá-lo com a mão. Quisemos saber o que era. O Dr. Juan Jiménez Vargas tinha acompanhado São Josemaria durante a guerra civil na sua fuga através dos Pirineus, e conservava um esquema que este tinha feito nesses momentos sobre a organização da futura Universidade de Navarra, que não existia senão em sonhos. É que o santo é, como as crianças, um sonhador, ainda que seja, como São Josemaria o era, muito realista. Naturalmente, os desânimos desapareceram.

A juventude procura resposta às perguntas básicas: sentido da vida, da morte, da dor. Pelos diferentes escritos biográficos de Josemaria Escrivá, sabe-se que também ele passou por estas inquietações, se bem que, desde muito pequeno, perante qualquer espécie de dor como foi a morte das suas três irmãs e a falência do negócio do pai, se tivesse agarrado à fé vivida em casa de seus pais. No meu caso, pela minha falta de formação religiosa, não encontrava resposta para estas perguntas, até que, com os ensinamentos de São Josemaria, pude compreender em toda a sua amplitude o valor do sofrimento. Sendo protestante, tinha como explicação o 'faça-se a tua vontade' (Mt 6, 10.) do Pai Nosso, mas não me bastava. Quando os meus companheiros de Medicina me deram a conhecer o Caminho, descobri que a dor era muito mais que isso: era expiação dos pecados próprios e alheios, e sobretudo era acompanhar o Senhor na sua Cruz, era padecer por amor. Penso que esta foi uma das descobertas mais sensacionais da minha vida.

A juventude sonha com o amor. Um amor puro e grande, que não atraiçoa

A juventude sonha com o amor. Um amor puro e grande, que não atraiçoa, que não acabe nunca. São Josemaria tinha-o encontrado em Jesus Cristo, e empregou toda a sua vida em fazê-lo descobrir aos outros: também a mim. Descobrir isso que os católicos chamam vocação, esse chamamento de Deus, foi algo inexplicável, que me fez feliz então e continua a fazer-me feliz agora. Por sua vez, encontrar esse amor leva a decidir um projeto vital, a orientação que nos permite aprofundar no sentido da vida. E isto, na juventude, dá uma imensa segurança. Produz também decisões de entrega, dar-se conta de que vale a pena dar tudo, até a vida, por esse amor, e dá a convicção de que é sempre pouco. A juventude é generosa, dá-se a si mesma sem medida(Cfr. Caminho, 30). Não calcula, não regateia. Assim agiu São Josemaria durante toda a sua vida: por isso foi sempre jovem, e por isso vale a pena tê-lo como exemplo.

Maria Casal nasceu em Guillena (Sevilha). De nacionalidade suíça. Fez o ensino secundário na École française de Sevilha e um ano de Economia doméstica na Suíça. Doutorou-se em Medicina pela Universidade de Barcelona. Foi a primeira Diretora da Escola de Enfermeiras da Universidade de Navarra. Vive na Suíça desde 1965. Obteve o diploma de Orientação profissional em 1967. Foi professora de religião em centros de ensino em Zurique e desenvolveu trabalho educativo em centros culturais e residências de estudantes.

Maria Casal


Apresentou uma reflexão sobre os traços que ela própria observou no fundador do Opus Dei; realçou especialmente o espírito jovem de São Josemaria.