22 de abril de 1941: o falecimento de Dona Dolores

Dona Dolores, a mãe de são Josemaria, faleceu em 22 de abril de 1941. A morte da mãe surpreendeu o Padre num momento muito particular, enquanto pregava um retiro a sacerdotes.

Opus Dei - 22 de abril de 1941: o falecimento de Dona Dolores

Desde o fim da guerra, o fundador do Opus Dei desenvolvia um apostolado extensíssimo em Madri e em diversos lugares da Espanha; entre outras atividades, pregava muitos retiros espirituais a sacerdotes. Em abril de 1941, aceitou o convite para pregar um retiro ao bispo e ao clero da diocese de Lérida.

Uns dias antes de ir a essa cidade, a sua mãe tinha participado de uma excursão ao Escorial com alguns jovens da Obra, e sentiu uma leve afecção nos brônquios. No dia seguinte, guardou cama, mas não parecia ser nada sério.

O Padre, prudentemente, perguntou ao médico se podia partir tranquilo, e o médico disse-lhe que não se preocupasse. Por isso, ao despedir-se da mãe, pediu-lhe que oferecesse ao Senhor esses achaques pelos sacerdotes que iam participar do retiro. Dona Dolores, que talvez fosse a única a pressentir a gravidade da doença, assentiu, mas, enquanto são Josemaria saía do quarto, sussurrou: "Este filho!"

O biógrafo Andrés Vázquez de Prada narra o acontecimento:

Era uma mulher sadia, trabalhadora e sorridente. Muito poucas vezes ficou de cama. Não lhe conheciam outros achaques a não ser o reumatismo, embora, sem dúvida, a sua resistência tivesse ficado muito minada com os sofrimentos da guerra. Saía muito pouco de casa. Unicamente para ir à Missa ou fazer alguma compra. Por exceção, num dia de primavera, por volta de 12 de abril, os seus “netos” levaram-na de passeio até o Escorial. No dia seguinte, estava com fortes dores de cabeça e diagnosticaram-lhe uma leve afecção dos brônquios. Vieram depois febres altas e a doença seguiu o curso normal. Mas os dois médicos que a atendiam, Juan Jiménez Vargas e outro colega, não estavam preocupados com o estado da paciente.

Por aquelas alturas, o Padre Josemaria fora convidado pelo Bispo Administrador Apostólico de Lérida, D, Manuel Moll, a pregar um retiro aos sacerdotes da sua diocese. Como a data do retiro estava próxima, o Padre consultou os médicos sobre o estado da mãe. Eles tranquilizaram-no; a evolução da doença indicava melhoras. E assim em 20 de abril, o sacerdote despediu-se dela, pedindo-lhe que oferecesse os seus achaques pelo trabalho que ia fazer nesse retiro. Quando o filho saia do quarto, Dona Dolores, da cama, deixou escapar em voz baixa um 'Este filho!" Como se pressentisse a profundidade do sacrifício que lhe era pedido.

Apesar de Álvaro ter avisado o Padre, num telefonema para Saragoça, de que a sua mãe continuava a melhorar, o Padre Josemaria sentia um vago pressentimento do sacrifício que também a ele lhe seria pedido. Mal chegou ao Seminário de Lérida, dirigiu-se e ao Sacrário com esta oração: Senhor, cuida da minha mãe, já que me estou ocupando dos teus sacerdotes. Depois foi para o seu quarto e, ainda com um triste pressentimento, escreveu ao Vigário Geral de de Madri:

Acabo de chegar a Lérida, e remorde-me a consciência, não te ter dito que vinha pregar um retiro a Sacerdotes. Não houve tempo material de ver-te. Só falei com Lahiguera.

Deixei a minha mãe em Madri, bastante doente. Pede ao Senhor que, se for da sua Vontade, não ma leve ainda: parece-me que Ele e eu precisamos dela na terra.

Vinte e quatro horas depois, repentinamente, a doença da Avó agravou-se, com todos os sintomas de pneumonia traumática. A tal ponto que “na manhã anterior à sua morte - conta Santiago Escrivá - eu entrei no seu quarto para me despedir antes de ir para a Universidade, como todos os dias”.

A Avó entrou em agonia numa hora em que o Padre Josemaria preparava uma prática para os sacerdotes, no Seminário de Lérida, com o propósito de abordar a função que a mãe do sacerdote deve desempenhar na vida do seu filho, como ele mesmo refere:

A meio do retiro, por volta do meio-dia, dirigi-lhes uma prática: comentei a tarefa sobrenatural, o ofício inigualável que compete à mãe junto do seu filho sacerdote. Terminei, e quis ficar recolhido na capela por alguns momentos. Quase imediatamente, veio com o rosto alterado o Bispo administrador apostólico, que também fazia o retiro, e disse-me: o Sr. Álvaro chama-o ao telefone. Padre, a Avó morreu, escutei a Álvaro.

Voltei à capela, sem uma lágrima. Compreendi imediatamente que o Senhor meu Deus tinha feito o que mais convinha: e chorei, como chora uma criança, rezando em voz alta - estava a sós com Ele - aquela longa jaculatória que tantas vezes. recomendo: Fiat, adimpleatur, laudetur... iustissima atque amabilissima voluntas Dei super omnia. Amen. Amen. Desde então, pensei que o Senhor quis de mim esse sacrifício como demonstração externa do meu carinho pelos sacerdotes diocesanos, e que a minha mãe continua a interceder especialmente por esse trabalho.

O governador civil de Lérida, Juan Antonio Cremades, conhecido dos tempos de Saragoça, pôs um carro à disposição do Padre. Mas, devido a uma série de percalços, não chegaram a Madri senão às quatro da madrugada. O Padre Josemaria entrou no oratório de Diego de León, onde estavam sendo velados os restos mortais de Dona Dolores. Após umas lágrimas contidas e serenas perante o cadáver da mãe, pediu a Álvaro que o ajudasse a rezar um Te Deum.

Saiu do oratório, e explicaram-lhe com certo detalhe a morte da Avó, enquanto ele, em voz baixa, protestava filialmente com o Senhor: Meu Deus, meu Deus, que fizeste? Vais-me tirando tudo; tiras-me tudo. Eu pensava que a minha mãe fazia muita falta a estas minhas filhas, mas deixas-me sem nada, sem nada! Depois preparou-se para celebrar a Missa de corpore insepulto. A essa missa seguiram-se outras, celebradas por sacerdotes amigos. O enterro foi de tarde. Presidiam, ao lado do Padre Josemaria, o seu irmão Santiago e frei José López Ortiz. Dona Dolores foi sepultada no cemitério madrileno de La Almudena.

E o fundador ficou com a firme convicção sobrenatural de que a morte da sua mãe estava ligada ao trabalho apostólico com os sacerdotes, como deixa entrever em cartas dessas datas:

Agradeci com toda a minha alma os seus afetuosos pêsames pelo falecimento da minha mãe (q.e.g.e.). Foi para mim um golpe duro e, ao mesmo tempo, muito consolador; porque sempre me ajudou com carinho no meu trabalho sacerdotal, e com certeza já recebeu de Deus nosso Senhor a sua recompensa.

Repetia-se mais uma vez a lição de que, na sua vida, Deus o fazia ir adiante dos seus filhos. Se não pudera estar presente quando o Sr. José morrera, o mesmo acontecia agora, com o falecimento da mãe. E assim, quanto mais meditava nesses dois acontecimentos, mais claramente tirava a lição de que também nesse desprendimento devia dar exemplo. Porque, no dia de amanhã, muitos dos seus filhos, que residiriam em terras longínquas por causa da expansão da Obra, estariam ausentes ao morrerem os seus pais.

Dois dias depois do enterro — refere José Luis Múzquiz —, o Padre dirigiu uma meditação no oratório onde fora velado o cadáver. Olhando para o Sacrário, como fazia freqüentemente, e aceitando por completo a Vontade de Deus, orava assim:

Senhor, estou contente de que tenhas tido esta confiança comigo, pois, ainda que se procure que os meus filhos estejam presentes quando os seus pais morrerem, nem sempre lhes será possível, pelas necessidades do apostolado. E quiseste, Senhor, que também nisto eu fosse à frente.

Texto retirado do livro “O fundador do Opus Dei (II), Andres Vázquez de Prada, pp. 415-418.