13. Discernimento

O Papa Francisco, nesta catequese, considera mais especificamente algumas ajudas que podem facilitar este exercício indispensável da vida espiritual.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!

Continuemos – acabando – as catequeses sobre o discernimento, e quem seguiu estas catequeses até agora talvez possa pensar: que prática complicada é discernir! Na realidade, é a vida que é complicada e, se não aprendermos a lê-la, complicada como é, corremos o risco de desperdiçá-la, levando-a em frente com expedientes que acabam por nos aviltar.

No nosso primeiro encontro vimos que todos os dias, realizamos atos de discernimento, quer queiramos, quer não, no que comemos, no que lemos, no trabalho, nos relacionamentos, em tudo. A vida sempre nos coloca diante de escolhas. Se não as fizermos de maneira consciente, no final, é a vida que escolherá por nós, nos levando para onde não gostaríamos de ir.

No entanto, o discernimento não se faz sozinhos. Hoje, abordemos mais especificamente algumas ajudas que podem facilitar este exercício do discernimento, indispensável da vida espiritual, embora de certo modo já as tenhamos encontrado no decorrer dessas catequeses. Um resumo, porém, nos ajudará muito.

Uma primeira ajuda indispensável é o confronto com a Palavra de Deus e a doutrina da Igreja. Elas nos ajudam a ler o que se move no coração, aprendendo a reconhecer a voz de Deus e a distingui-la de outras vozes, que parecem impor-se à nossa atenção, mas que no final nos deixam confusos. A Bíblia nos adverte que a voz de Deus ressoa na calma, na atenção, no silêncio. Pensemos na experiência do profeta Elias: o Senhor não lhe fala no vento que fende as rochas, nem no fogo ou no tremor de terra, mas fala-lhe numa brisa suave (cf. 1 Rs 19, 11-12). É uma imagem muito bonita que faz com que compreendamos o modo como Deus fala! A voz de Deus não se impõe, a voz de Deus é discreta, respeitosa, permito-me dizer: a voz de Deus é humilde e, precisamente por isso, pacificadora. E somente na paz podemos entrar em nosso íntimo e reconhecer os desejos autênticos que o Senhor colocou em nosso coração. E muitas vezes não é fácil entrar naquela paz do coração, pois andamos atarefados, com isto, aqui e ali, o dia inteiro... Mas, por favor, acalme-se um pouco e entre em si mesmo. Dois minutos, apenas. Preste atenção ao que seu coração sente. Façamos isso, irmãos e irmãs, pois nos ajudará muito. Naquele momento de calma, imediatamente ouviremos a voz de Deus nos dizendo: “Mas repara, olha o que você está fazendo...”. Deixemos que a voz de Deus venha de repente na calma. Ela nos espera para isso...

Para quem crê, a Palavra de Deus não é simplesmente um texto para ler, a Palavra de Deus é uma presença viva, é uma obra do Espírito Santo que conforta, instrui, dá luz, força, alívio e gosto de viver. Ler a Bíblia, ler um trecho, um ou dois trechos pequenos da Bíblia, são como pequenos telegramas de Deus que chegam logo ao seu coração. A Palavra de Deus é – e não exagero – um pouco como verdadeira antecipação do paraíso. Quem o compreendeu bem foi um grande santo e pastor, Ambrósio, aquele bispo de Milão, que escreveu: "Quando leio a Divina Escritura, Deus volta a passear no paraíso terrestre" (Carta, 49, 3). Com a Bíblia, abrimos a porta a Deus que passeia. Interessante...

Esta relação afetiva com a Bíblia, com a Escritura, com o Evangelho, leva a viver uma relação afetiva com o Senhor Jesus, não tenham medo disto! O coração fala ao coração, e esta é outra ajuda indispensável e não é óbvia. Muitas vezes podemos ter uma ideia deturpada de Deus, considerando-o como um juiz cruel e severo, pronto para nos pegar em flagrante, com a corda pronta para nos punir. Jesus, ao contrário, nos  revela um Deus cheio de compaixão e ternura, pronto a sacrificar-se para vir ao nosso encontro, exatamente como o pai da parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32). Certa vez, alguém perguntou – não sei se à mãe ou à avó, contaram-me – “Mas o que devo fazer neste momento?” – “Ouve Deus, Ele dirá o que você deve fazer. Abra o coração a Deus”: um bom conselho. Recordo uma vez, numa peregrinação de jovens, que se faz uma vez por ano ao Santuário de Luján, a 70 km de Buenos Aires, em que se leva o dia inteiro para chegar lá; eu tinha o hábito de atender as confissões durante a noite. Aproximou-se um rapaz, de 22 anos mais ou menos, tudo, com muitas coisas [kit], tatuagens... “Meu Deus – pensei – o que será isto?”, não? E disse: “O senhor sabe, vim porque tenho um problema grave, contei à minha mãe e ela me disse: “Vá até Nossa Senhora, faça a peregrinação, e Nossa Senhora responderá”. E vim. Tive contato com a Bíblia, aqui, ouvi a Palavra de Deus que me comoveu o coração e devo fazer isto, isto e isto”. A Palavra de Deus faz comover o coração e muda a sua vida. E assim vi muitas coisas, isto, tantas vezes. Pois Deus não deseja nos destruir, Deus quer que sejamos mais fortes, melhores a cada dia. Quem permanece diante do Crucificado sente uma nova paz, aprende a não ter medo de Deus, pois Jesus na cruz não assusta ninguém, é a imagem do desamparo total e ao mesmo tempo do amor mais completo, capaz de enfrentar todas as provações por nós. Os santos sempre tiveram uma predileção por Jesus Crucificado. A narração da Paixão de Jesus é a via mestra para nos confrontarmos com o mal sem sermos esmagados por ele; nela não há julgamento nem sequer resignação, porque é permeada por uma luz maior, a luz da Páscoa, que permite ver naqueles terríveis feitos um desígnio maior, que nenhum impedimento, obstáculo ou fracasso pode frustrar. A Palavra de Deus sempre o faz olhar para o outro lado: isto é, há a cruz, aqui, é terrível, mas há o outro lado, uma esperança, uma ressurreição. A Palavra de Deus abre todas as portas, pois Ele é a porta, é o Senhor. Peguemos o Evangelho, peguemos a Bíblia em nossas mãos: cinco minutos por dia, não mais. Carreguem um Evangelho com vocês, na bolsa, e, quando estiverem viajando, leiam um pequeno trecho durante o dia, deixando que a Palavra de Deus se aproxime de seus corações. Façam isso e verão como sua vida mudará. Com a proximidade à Palavra de Deus. “Sim, Padre, mas estou habituado a ler a Vida dos Santos”: isto faz bem, faz bem, mas não deixes a Palavra de Deus. Leve o Evangelho com você, todos os dias, e leia um minuto...

É muito bonito pensar na vida com o Senhor como uma relação de amizade que cresce dia após dia. A amizade com Deus – já pensou nisto? Mas, é a estrada! Pensemos em Deus, ele nos dá... Deus não nos dá tanto, não? Deus nos ama, quer nossa amizade! A amizade com Deus tem a capacidade de transformar o coração; é um dos grandes dons do Espírito Santo, a piedade, que nos torna capazes de reconhecer a paternidade de Deus. Temos um Pai terno e carinhoso, um Pai que nos ama, que sempre nos amou: quando experimenta isto, o coração dissolve-se e as dúvidas, os receios, os sentimentos de indignidade desaparecem. Nada se pode opor a este amor do encontro com o Senhor!

E isto nos lembra outra grande ajuda, o dom do Espírito Santo, que está presente em nós, e que nos instrui, torna viva a Palavra de Deus que lemos, sugere novos significados, abre portas que pareciam fechadas, indica caminhos de vida onde parecia existir apenas escuridão e confusão. Pergunto-lhes: vocês rezam ao Espírito Santo? Mas quem é ele? O Grande Desconhecido? Nós rezamos ao Pai, sim, ao Nosso Pai, rezamos a Jesus, mas esquecemos o Espírito! Certa vez, fazendo a catequese às crianças, perguntei: “Quem de vós sabe quem é o Espírito Santo?”. E um menino: “Eu sei!” – “E quem é?” – “O paralítico”, disse! Ele tinha ouvido “o Paráclito”, e pensava que fosse um paralítico. E muitas vezes – isto me fez pensar – para nós o Espírito Santo está ali, como se fosse uma Pessoa que não conta. O Espírito Santo é aquele que  dá vida para a alma! Deixe-o entrar. Falem com o Espírito assim como falam com o Pai, como falam com o Filho: falem com o Espírito Santo – que nada tem de paralítico! Ele tem a força da Igreja, é aquele que te leva em frente. O Espírito Santo é discernimento em ação, presença de Deus em nós, é o dom, a maior dádiva que o Pai garante a quantos o pedem (cf. Lc 11, 13). E Jesus como o chama? “O dom”: “Permanecei aqui em Jerusalém na espera do dom de Deus”, que é o Espírito Santo. É interessante levar a vida na amizade com o Espírito Santo: Ele muda-te, Ele faz-te crescer.

A Liturgia das Horas dá início aos principais momentos de oração do dia, com esta invocação: "Senhor, vinde salvar-me! Senhor, vinde sem demora em meu auxílio!". "Senhor, socorrei-me!", porque sozinho não posso continuar, não posso amar, não posso viver... Esta invocação de salvação é o pedido irreprimível que brota do íntimo do nosso ser. O discernimento tem a finalidade de reconhecer a salvação realizada pelo Senhor na minha vida, lembra que nunca estou só e que, se luto, é porque a aposta é importante. O Espírito Santo está sempre conosco. “Oh, Padre, fiz algo negativo, devo ir confessar-me, não posso fazer nada...”. Mas, fizeste algo mau? Fala ao Espírito que está contigo e diz-lhe: “Ajudai-me, fiz algo ruim...”. Mas não interrompa o diálogo com o Espírito Santo. “Padre, estou em pecado mortal”: não importa, fala com Ele assim Ele o ajudará a se perdoar. Nunca deixe de dialogar com o Espírito Santo. Com essas ajudas que o Senhor nos oferece, não devemos ter medo! Em frente, com coragem e alegria!