Homilia do Prelado na festa do Bem-Aventurado Álvaro del Portillo

Mons. Fernando Ocáriz, na missa celebrada em 12 de maio de 2026 na Basílica de São Eugênio (Roma).

“O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma. Pelos prados e campinas verdejantes ele me leva a descansar. Para as águas repousantes me encaminha, e restaura as minhas forças”. São palavras do Salmo 23 (22), o salmo escolhido para a missa do Bem-aventurado Álvaro, o bom e fiel pastor que soube conduzir seus filhos e tantas outras almas a águas tranquilas, imagem luminosa de um coração pacificado pelo Amor.

Em um mundo tão frequentemente agitado pelo barulho e pela falta de paz, sua vida foi um reflexo sereno daquela paz que só Deus pode dar. Ele próprio expressava isso com simplicidade e profundidade em um encontro familiar: “Quando nossa alma está orientada para Deus, como um mar calmo, experimenta o gaudium cum pace, a alegria e a paz: uma alegria contagiante”1. E realmente era assim a presença do Bem-aventurado Álvaro: ele tinha uma paz serena e humilde que alcançava silenciosamente o coração de todos aqueles que estavam ao seu lado.

A ele poderiam ser aplicadas perfeitamente estas palavras de São Josemaria: “Característica evidente de um homem de Deus, de uma mulher de Deus, é a paz na sua alma: tem ‘a paz’ e dá ‘a paz’ às pessoas com quem convive”2.

Mas essa paz e essa alegria não provinham simplesmente de um estado de ânimo natural; nasciam, ao contrário, de uma união profunda com o Senhor, que é a verdadeira paz do mundo. É um conceito que também o Papa Leão XIV quis destacar recentemente: “Como Rei da paz, Jesus quer reconciliar o mundo no abraço do Pai e derrubar todos os muros que nos separam de Deus e do próximo, porque “Ele é a nossa paz” (Ef 2,14)”3.

Juntamente com a paz, o Evangelho que acabamos de ouvir nos diz que “O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10, 11). Jesus, o Bom Pastor, antes de se entregar a seus discípulos no pão eucarístico, na Última Ceia, parte o pão, antecipando e simbolizando assim a laceração do seu próprio coração, mais tarde traspassado por uma lança na cruz. Esta é a lógica do amor verdadeiro: entregar-se inteiramente para que os outros tenham a vida.

Por isso, ressoam hoje com particular força também as palavras da Carta aos Colossenses, que ouvimos na primeira leitura: “alegro-me de tudo o que já sofri por vós e procuro completar na minha própria carne o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com o seu corpo, isto é, a Igreja” (1, 24-25).

Dom Álvaro também foi assim. Ele foi consumindo silenciosamente sua vida no serviço aos outros, com uma dedicação humilde e serena. E foi justamente nessa entrega de si mesmo que muitas pessoas puderam descobrir o rosto próximo e misericordioso de Deus. Sua vida, oferecida com simplicidade, tornou-se para tantas pessoas fonte de consolo e de fortaleza.

A verdadeira paz não é aquela que procura, antes de tudo, evitar os conflitos. O Bom Pastor não foge quando vê chegar o lobo, mas permanece para defender fielmente as ovelhas com a própria vida. Pois a paz é, antes de tudo, um dom enraizado na fortaleza de Deus; é aquela paz profunda que Cristo concedeu aos seus discípulos: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz” (Jo 14,27).

A paz que Dom Álvaro transmitia, juntamente com uma atitude de compreensão e afeto, incluía também a virtude da fortaleza, especialmente quando era necessário exigir ou corrigir outras pessoas. Assim se expressava, por exemplo, em uma carta pastoral: “Preciso lembrar-lhes também que ser semeadores de paz não significa que devemos transigir diante de qualquer acontecimento ou conversa (...). Pelo contrário, meus filhos: procuraremos, com santa intransigência, afogar o mal na abundância do bem, como dizia nosso Padre, justamente para que reine a verdadeira paz entre os homens deste nosso mundo”4.

Como em todas as épocas, o coração humano continua hoje a ter sede de verdade, sede de autenticidade; em suma, sede de Deus. Pois a verdadeira paz só pode desdobrar suas asas onde habita a verdade.

Não pode haver paz se faltar o amor pela verdade. Cristo veio à terra, diz São Paulo, para que “todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2,4).

O Bem-aventurado Álvaro foi um homem de paz precisamente porque, seguindo o exemplo de São Josemaria, soube amar a verdade com todo o seu coração e com todas as suas forças.

Recorramos à Bem-Aventurada Virgem Maria, a Rainha da Paz. A Ela, que guardava todas as coisas em seu coração e que permaneceu firme ao pé da cruz de seu Filho, pedimos que nos ensine o caminho da verdadeira paz. E pedimos-lhe também que nos conceda, por intercessão do Bem-aventurado Álvaro del Portillo, a graça de ter paz na alma e de saber levá-la aos outros.

Assim seja.

1 Álvaro del Portillo, Anotações de uma reunião familiar, 24 de fevereiro de 1988 (Arquivo Geral da Prelazia –AGP, P04, 1988, p. 542.

2 São Josemaria, Forja, n. 649.

3 Papa Leão XIV, Homilia do Domingo de Ramos, 29 de março de 2026.

4 Carta Pastoral, 1 de outubro de 1989 (AGP, biblioteca, P17, III, n. 52).