Meditações: 5º domingo de São José

Quinta reflexão para meditar durante os sete domingos de São José. Temas propostos: José acolhe os planos divinos; Descobrir a Deus na realidade diária; A coerência do modo de atuar de Deus.

Opus Dei - Meditações: 5º domingo de São José

- José acolhe os planos divinos

- Descobrir a Deus na realidade diária

- A coerência do modo de atuar de Deus


A VIDA DIÁRIA está cheia de ocasiões e decisões que marcam um determinado rumo, e algumas delas têm uma importância transcendental em nosso futuro. Habitualmente é necessário ponderar as coisas na presença de Deus, com maior razão nessas situações especiais. “José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa” (Mt 1, 21), disse o anjo ao patriarca. O evangelho de São Mateus afirma que José ponderou em seu coração o que estava acontecendo para saber como atuar. É por isso que ele é apresentado “como figura de homem respeitoso, delicado que, mesmo não dispondo de todas as informações, se decide pela honra, dignidade e vida de Maria. E, na sua dúvida sobre o melhor a fazer, Deus ajudou-o a escolher iluminando o seu discernimento”[1].

Santa Maria concebeu Cristo pela fé, pois acolheu os planos do Senhor, acreditou que se cumpririam as palavras do anjo. Podemos aplicar o mesmo raciocínio a José, que acolheu também o que lhe foi comunicado por Deus. O santo patriarca confiou naquelas palavras e se envolveu pessoalmente no que lhe foi anunciado. Assumiu para si o plano de Deus, com a confiança de que se tratava de algo bom, não só para a humanidade em geral, mas também para ele mesmo: estava feliz naquela história; tinha se tornado o plano que ele desejava realizar. Na linguagem comum dizemos que a reprodução de uma obra de arte é “fiel” quando reflete o projeto original do artista. Porém, Deus cria um relacionamento com criaturas dotadas de autêntica liberdade; a arte está, então, em aprender, ao longo da nossa vida, a acolher seus planos e reconhecer neles algo bom para nós e para aqueles que nos rodeiam.

São José vive no meio de situações normais: trabalho, família, vida diária... e é aí que aprende a acolher e a tornar vida o dom de Deus. Esta atitude é necessária para todos os cristãos. Podemos pedir ao santo patriarca que renove o nosso olhar e o nosso coração para abrir-nos aos dons e planos divinos com novidade de sentido.


TODOS SOMOS chamados a formar lares que, imitando o de Cristo, abram as suas portas de par em par. Acolher é ter a valentia de receber com ternura, reconhecer o que é bom, promover, ter iniciativa, não se resignar à comodidade do que se conhece, nem ceder à passividade. Acolher é ter uma disposição habitual de estar sempre aberto às necessidades dos outros. José tem um protagonismo “corajoso e forte. O acolhimento é um modo pelo qual se manifesta, na nossa vida, o dom da fortaleza que nos vem do Espírito Santo”[2]. O santo patriarca é um homem fiel que se abre, em primeiro lugar, à voz de Deus. Acolhe igualmente, porém, o claro-escuro da história na qual se vê inserido, acolhe os desafios que o mundo e as pessoas que o rodeiam apresentam à sua missão. “O realismo cristão, que não rejeita nada do que existe. A realidade, na sua misteriosa persistência e complexidade, é portadora de um sentido da existência com as suas luzes e sombras. É isto que leva o apóstolo Paulo a dizer: ‘Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus’ (Rm 8, 28). E Santo Agostinho acrescenta: tudo, ‘incluindo aquilo que é chamado mal’. Nesta perspectiva global, a fé dá significado a todos os acontecimentos, sejam eles felizes ou tristes”[3].

São Josemaria gostava de contemplar como São José procura continuamente o melhor modo de cumprir os planos divinos, que passaram a ser dele também; “coloca toda a sua experiência humana a serviço da fé. Quando volta do Egito, ouvindo que Arquelau reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes temeu ir para lá. Aprendeu a mover-se dentro do plano divino e, como confirmação de que seus pensamentos vão ao encontro do que Deus realmente quer, recebe a indicação de se retirar para a Galileia”[4]. Em nosso caminho para realizar a missão que Deus nos confiou teremos tanto avanços quanto retrocessos. Mas também nos momentos que podem parecer maus podemos descobrir a voz de Deus que nos consola, nos instrui e nos ilumina. “Acolher a vida desta maneira introduz-nos num significado oculto. A vida de cada um de nós pode recomeçar miraculosamente, se encontrarmos a coragem de a viver segundo aquilo que nos indica o Evangelho. E não importa se tudo parece ter tomado já uma direção errada, e se algumas coisas já são irreversíveis. Deus pode fazer brotar flores no meio das rochas”[5].


“VEDE QUAL é o ambiente em que Cristo nasce – sugeria São Josemaria – Tudo lá insiste nesta entrega sem condições: José – uma história de duros acontecimentos, combinados com a alegria de ser o guardião de Jesus – põe em jogo toda sua honra, a serena continuidade do seu trabalho, a tranquilidade do futuro; toda a sua existência é uma total disponibilidade para o que Deus lhe pede (...). Em Belém ninguém reserva nada para si. Lá não se ouve falar de minha honra, nem de meu tempo, nem de meu trabalho, nem de minhas ideias, nem de meus gostos, nem de meu dinheiro. Lá se coloca tudo a serviço do grandioso jogo de Deus com a humanidade”[6]. Para poder acolher a realidade e as outras pessoas como o santo patriarca, precisamos abandonar-nos mais nas mãos seguras de Deus do que nas nossas; assim nos disporemos a aprender de todos e de tudo, também dos nossos erros, porque por trás deles sempre descobriremos um sussurro divino. “A vida espiritual que José nos mostra, não é um caminho que explica, mas um caminho que acolhe. Só a partir deste acolhimento, desta reconciliação, é possível intuir também uma história mais excelsa, um significado mais profundo”[7].

São José não ignorou o aviso do anjo e partiu para os lugares que lhe pareciam melhores para Jesus; também não discutiu com a sua esposa sobre qual deveria ter sido a sua reação quando soube que ela ia dar à luz um filho. Ao procurar lugar para o Menino que ia nascer, São José não se queixava cada vez que não o encontrava, e também não quis ficar obstinadamente em Belém, diante da ameaça de Herodes, por mais injusto que fosse ter que partir para o Egito. Em cada um destes acontecimentos, São Josemaria faz notar que o santo patriarca “aprendeu pouco a pouco que os planos sobrenaturais têm uma coerência divina, embora às vezes estejam em contradição com os planos humanos”[8]. Por isso, precisamos pedir a sabedoria do pai terreno de Jesus para aprender a compreender essa lógica divina; e acolher então, como vindas de Deus, as pessoas e os acontecimentos à nossa volta.


[1] Francisco, carta apostólica Patris corde, n. 4.

[2] Ibid.

[3] Ibid.

[4] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 42.

[5] Francisco, carta apostólica Patris corde, n. 4.

[6] São Josemaria, Carta 14-II-1974, n. 2.

[7] Francisco, carta apostólica Patris corde, n. 4.

[8] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 42.